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26 de dez. de 2016

O que esperar da Campanha da Fraternidade de 2017?


Vejamos o que diz a Dr.ª Geni Maria Hoss
(Hoss, G. M. (2013). Fé criacional. São Lepoldo: Teses)

"Crer em Deus Criador é essencialmente crer que ele tudo criou por amor. O amor de Deus precede a criação. Amor que é sua essência como Deus, que é uno e trino. Os vínculos do amor se dão em primeiro plano no seio da Trindade. A criação está no início da história da aliança de Deus. Aquele que é o grande Criador é também aquele que está em aliança com seu povo e sua criação. Esta aliança constitui a dinâmica relacional Criador – criação – Criador.

A revelação da criação é inseparável da revelação e da realização da Aliança de Deus, o Único, com o seu Povo. A criação é revelada como sendo o primeiro passo rumo a esta Aliança, como o testemunho primeiro e universal do amor Todo-Poderoso de Deus[1].

Na aliança com Noé aparece de forma singular o cuidado da vida. A arca é o lugar do cuidado da vida. É, portanto, uma aliança com a vida! A família de Noé – a pomba – o ramo – a terra são referências à vida, a distintos elementos da natureza. “Pode-se falar [...] de uma aliança cósmica, proporcional ao estado de perversidade e a punição”[2].
 Portanto, Deus se relaciona não só com o ser humano, mas com toda a sua criação. Dos seres humanos, ele espera fidelidade à aliança. "Se ouvirdes minha voz e guardardes minha aliança, sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa" (Ex 19,5-6). É Deus que dá forma e, no conjunto de todas as coisas, define um lugar para cada coisa, a partir do qual, ele é importante para o conjunto da criação. A ação criadora está fundada única e exclusivamente na sua vontade e sua palavra. Ele cria do nada - creatio ex nihilo – e só por amor - creatio ex amore.

Como a teoria do Big Bang não exclui de fato a possibilidade de um precedente estado da matéria, é possível relevar que ela parece dar um apoio simplesmente indireto à doutrina da creatio ex nihilo que, como tal, só se pode conhecer através da fé[3].

O princípio criador está baseado na total gratuidade do Criador. Ele cria no princípio - creatio in principio -. "No princípio, Deus criou o céu e a terra" (Gn 1,1). A criação no princípio culmina com a nova criação em Cristo. “Deus eterno pôs um começo a tudo o que existe fora dele. Só ele é Criador (o verbo ‘criar’ - em hebraico, 'bara' sempre tem como sujeito Deus). Tudo o que existe (expresso pela fórmula ‘o céu e a terra’) depende daquele que lhe dá o ser”[4]. Ele cria e conserva o que criou. “É Deus que, numa creatio continua lhes dá a vitalidade e os mantém na existência”[5]. Nenhuma criatura sobrevive sem luz e sem água, nenhum ser humano vive sem amor. A criação depende da vontade permanente de Deus para que ela continue a existir. A creatio continua é a dimensão da fé que permite vislumbrar uma imensurável dinamicidade da criação. Trata-se de incontáveis processos vitais do conjunto de ecossistemas, na perspectiva cristã, não estão dissociados da criação in principio e, por isso, com razão se pode afirmar a criação in statu viae[6]. A criação não caminha para um fim aleatório, sem rumo e sem sentido. Existe um desígnio original em relação à criação como um todo, mas também em relação a cada criatura. "Muitos são os projetos do coração humano, mas é o desígnio do Senhor que permanece firme" (Pr 19,21). Este desígnio está ligado ao modo de ser e estar no mundo sempre numa perspectiva escatológica. A fé na providência de Deus é, sobretudo, a fé no desígnio do Criador com sua criação e identificá-lo permite entender o sentido e significado do movimento de todas as coisas criadas.

Ela [a criação] é criada ‘em estado de caminhada’ [‘in statu viae’] para uma perfeição última a ser ainda atingida, para a qual Deus a destinou. Chamamos de divina providência as disposições pelas quais Deus conduz sua criação para esta perfeição[7].

A perspectiva escatológica da criação, a perfeição alcançada em Cristo, é o horizonte que ilumina a caminhada do Povo de Deus. Embora, na caminhada, a aliança é sempre de novo reestabelecida, o pecado pessoal e estrutural somente será plenamente vencido na dimensão escatológica. Não obstante, o plano de Deus não está sujeito a interferências das infidelidades humanas.

Deus conserva e governa com sua providência tudo o que criou; ela se estende "com vigor de um extremo ao outro e governa o universo com suavidade" (Sb 8,1). Pois "tudo está nu e descoberto aos seus olhos" (Hb 4,13), mesmo os atos dependentes da ação livre das criaturas[8].

Num tempo pós-reinado do cientificismo (da ciência como verdade absoluta, única e definitiva), há maior receptividade de outras abordagens, considerando-se que o avanço das descobertas científicas confronta a ciência também com seus próprios limites. Acidentes aleatórios, acasos e contingências não são incompatíveis com a providência de Deus porque “a causalidade divina pode estar ativa em um processo que é ou contingente ou dirigido”[9]. Como Deus providente “Deus é o Senhor soberano de seus desígnios, mas para a realização dos mesmos, serve-se também do concurso das criaturas”[10]. Existe uma reciprocidade dinâmica entre o Criador e a criatura consciente, habilitada para a relação com o transcendente, o que se constitui numa relação de responsabilidade ética com todo o mundo criado. Quando Deus for “tudo em todos” (1 Cor 15,28) e todo pecado e sofrimento for superado, então a Nova Criação será realidade. “Nela deve se realizar – que foi dito de forma antecipada por Jesus Cristo – o sim incondicional da criação como resposta à palavra criadora de Deus”[11]. A atitude exigida é do cuidado e compaixão e não da destruição. A compaixão desdobra-se em cuidados pelo outro. Acontece na experiência de alteridade. O outro dá sentido ao empenho em prol de todas as formas de vida. Portanto, não cabe uso indiscriminado dos bens da Terra e intervenções destruidoras de vida em benefício e conforto ilimitado próprio."


[1] CATECISMO da Igreja Católica, 1999, n. 288.
[2] PONTIFÍCIA Comissão Bíblica, 2009, n. 21.
[3] COMISSÃO Teológica Internacional. Comunhão e Serviço: A pessoa humana criada à imagem de Deus, 2004. Disponível em:
<http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_documents/rc_con_cfaith_doc_20040723_communion-stewardship_po.html.> Acesso em: 25 ago. 2013.
[4] CATECISMO da Igreja Católica, 1999, n. 290.
[5] PONTIFÍCIA Comissão Bíblica, 2009, n. 09.
[6] Cf. CATECISMO da Igreja Católica, 1999, n. 302.
[7] CATECISMO da Igreja Católica, 1999, n. 302.
[8] CATECISMO da Igreja Católica, 1999, n. 302.
[9] COMISSÃO Teológica Internacional, 2004, n. 69.
[10] CATECISMO da Igreja Católica, 1999, n. 306.
[11] KEHL, Medard. Und Gott sah, dass es gut war – Eine Theologie der Schöpfung. München: Herder, 2008, p. 36: “In ihr soll das – durch Jesus Christus bereits vorweg gesprochene – vorbehaltlose Ja der Schöpfung als Antwort auf das Schöpfungswort Gottes in allem verwirklicht sein”. (Tradução nossa).