3 de jul. de 2018

Bioética à luz da reflexão cristã católica: Vulnerabilidade e proteção especial

"Há grupos e povos que são vulneráveis por suas condições cristãs sociopolíticas cotidianas ou por conflitos e guerras de natureza diversa. No entanto, esses indivíduos não podem ser encarados como meros objetos de grandes decisões políticas merecendo estar no centro dos debates bioéticos. os dilemas sobre as condições desfavoráveis de uma sociedade são ainda mais graves, já que tanto o cuidado preventivo relativo a efeitos nocivos quanto as intervenções posteriores implicam em muitas questões éticas [...]. Vale destacarmos que os vulneráveis, muitas vezes, são fruto de sociedades injustas e exclusivas e de economias liberais utilitaristas que geram pobres por exclusão socioeconômica e negam direitos fundamentais, mesmo que esses estejam garantidos em suas respectivas constituições."

(Hoss, Geni Maria. Bioética à luz da reflexão cristã católica. Curitiba: Intersaberes, 2018, p. 118.)

26 de mar. de 2018

Sustentabilidade x Nachhaltigkeit - o começo de tudo!

Segue um recorte da palestra da professora Dr.ª Geni Maria Hoss sobre a sustentabilidade: 

"Quando se fala do neologismo sustentabilidade existem menções ao termo, embora bastante vagas, já no ano de 1560, na Saxônia, Alemanha. Portanto, desde esta época conhece-se o termo “Nachhaltigkeit”. O movimento das grandes potências marítimas como Espanha e Portugal acenderam uma luzinha para a questão dos recursos naturais, particularmente, das florestas na Europa. 
Porém, a ideia tomou corpo somente com Hans Carl von Carlowitz (1645 – 1714) que, ao visitar diversos países europeus, constatou também lá o conhecido problema da exploração das florestas, na Alemanha. Este se multiplicava em diversos países da região. Com sua obra Sylvicultura oeconomica, em 1713, ele apresenta a necessidade da gestão das florestas sustentáveis. Sua recomendação se tornou a pedra fundamental da administração das florestas:  “Só devem ser derrubadas tantas árvores quantas possam crescer novamente”.[1]
 Mas qual a situação da qual emerge o problema da escassez de madeira?

Naquela época a madeira foi a principal matéria-prima, que não era usada apenas para a construção, porém como combustível para cozinhar e aquecer. A matéria-prima era também indispensável para muitos processos de produção pré-industrial e construção de navios. O resultado foi o desmatamento e devastação de grandes áreas de mata na Europa. A Alemanha, na época, estava menos arborizada do que hoje. Também a mineração dependia da madeira. A mineração de prata nos Erzgebirge [montanhas] que, na época, era a espinha dorsal da economia da Saxonia, estava ameaçada. Isto não por falta de minério de prata, porém pela rápida diminuição [da madeira]. (Lexikon der Nachhaltigkeit, 2015, tradução nossa)[2]

 O termo nachhaltig (sustentável) foi traduzido no decorrer do século 19 em diversas línguas com vários acentos (sustainable, durable; duraturo). Na dinâmica da exploração da matéria-prima se pode ter as posturas distintas: uso planejado segundo recuperação natural, organizar e promover processos de recuperação, produzir as matérias-primas para substituir as extintas. Por longos anos, a sustentabilidade se concentrou na gestão das florestas como matéria-prima para diversos usos."


[1]  Es sollte nur so viel Wald geschlagen werden, wie wieder nachwächst. 
[2] „Holz war damals der wichtigste Rohstoff, der nicht nur zum Bauen gebraucht wurde, sondern auch Energieträger zum Kochen und Heizen war. Auch für viele vorindustrielle Produktionsprozesse und den Schiffbau war der Rohstoff unabdingbar. So kam es, dass weite Flächen in Europa entwaldet wurden und verödeten. Deutschland war damals weit geringer bewaldet als heute. Auch der Bergbau war auf Holz angewiesen. Der Silberbergbau im Erzgebirge, seinerzeit das wirtschaftliche Rückgrat Sachsens, war in seiner Existenz bedroht. Dies war nicht etwa aus Mangel an Silbererz der Fall, sondern wegen der sich schnell verschärfenden Holzknappheit.“

19 de nov. de 2017

Dia dos Pobres - um desafio para a sensibilidade humana

Teóloga Dr.ª Geni Maria Hoss
disponível em: genihoss.blogspot.com 

"'Em diversas áreas do planeta o nível do bem-estar continua a crescer, mas aumenta ameaçadoramente o número dos novos pobres e se alarga, por várias regiões, o hiato entre países menos desenvolvidos e países ricos. O mercado livre, processo econômico com lados positivos, manifesta todavia os seus limites. Por outro lado, o amor preferencial pelos pobres representa uma opção fundamental da Igreja, e ela o propõe a todos os homens de boa vontade' (DSI n. 3).

Há ricos pobres e pobres ricos! Eis porque falar do pobre não pode ser reduzido à condição econômica, embora esta seja determinante para a garantia de um mínimo necessário para a vida digna. O importante é não confundir a pobreza material com a pobreza humanitária. Por isso, há pobres econômicos de uma extrema riqueza humanitária. Sabem compartilhar espontânea e abnegadamente. Há ricos que são pobres na sensibilidade de perceber a necessidade do outro. Precisam reaprender a ser gente - precisam humanizar-se para que suas atitudes sejam também humanizadas e humanizadoras. 
Superar a pobreza não pode reduzir-se a gestos pequenos e pontuais, embora estes sejam extremamente importantes, é preciso uma jornada mundial em prol da vida, das necessidades mínimas da dignidade humana. Para alguns faltam bens materiais, outros carecem de bens humanitários. Todos igualmente necessitam de doação e ao mesmo tempo doar-se. As "estruturas sociais" opressoras são geradas e mantidas pela estrutura de pecado da humanidade. Pecado individual e social, pois se a pessoa não protagoniza um novo modo de ser em sociedade e para a sociedade, ela, no mínimo, permite que se estabeleçam e mantenham estruturas destruidoras da dignidade humana. Acordar, tomar iniciativa, agregar-se a grupos de afinidade é relevante. Mas não se trata exclusivamente de marchar e se manifestar publicamente. Antes disso, é preciso restabelecer a liderança e o protagonismo comunitário. Muitos aparecem só em dia de levantar a bandeira, o que pouco muda, embora seja uma relevante forma de manifestar a opinião e o desejo dos rumos da sociedade. A questão é: por que estão vazias muitas das cadeiras destinadas aos cidadãos para o exercício do controle social? Será que as ditaduras, inclusive aquelas disfarçadas de democracias, ainda dominam a nossa consciência cidadã? A lei do pensamento único, resultante das contínuas lutas entre dois extremos, está roubando muita iniciativa e criatividade. Se o cidadão quer paz, ele se sente obrigado a não expressar sua opinião. Porque em grande parte, a diferença de opiniões gera a mais perversa condenação pública - porque os espaços virtuais acabam sendo uma vitrine de exposição pública. E aqui não se está privilegiando nenhuma orientação política. Simplesmente é uma chaga social a ser aceita pela autocrítica e superada pela responsabilidade social e política de cada cidadão."

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"In different areas of the planet the level of well-being continues to grow, but there is also a dangerous increase in the numbers of those who are becoming poor, and, for various reasons, the gap between less developed and rich countries is widening. The free market, an economic process with positive aspects, is nonetheless showing its limitations. On the other hand, the preferential love for the poor represents a fundamental choice for the Church, and she proposes it to all people of good will".
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"En diversas áreas del planeta, el nivel de bienestar sigue creciendo, pero también aumenta peligrosamente el número de los nuevos pobres y se amplía, por diversas razones, la distancia entre los países menos desarrollados y los países ricos. El libre mercado, que es un proceso económico con aspectos positivos, manifiesta sin embargo sus limitaciones. Por otra parte, el amor preferencial por los pobres representa una opción fundamental de la Iglesia, y Ella la propone a todos los hombres de buena voluntad".