28 de jul. de 2017

Sobre questões do corpo - Dr.ª Geni Maria Hoss, disponível em: genihoss.blogspot.com

O corpo: entre idolatrias e desprezos!

Atualmente, o corpo está em evidência por diversos motivos. Na sociedade consumista, a sua beleza e perfeição são exaltados para se obter o máximo de lucros com os produtos de estética e beleza sempre mais sofisticados disponíveis no mercado. Os avanços tecnológicos na área da medicina permitem sonhar com sobrevida do corpo sempre mais longa e confortável. Crescem os dilemas em torno da finitude insuperável do corpo. Nas religiões, o corpo entra no debate do seu sentido e valor aqui e agora e também em vista da dimensão escatológica. Não se pode, porém, abordar assunto de tal abrangência com poucas palavras. Por isso, fazemos um recorte do pensamento da Igreja Católica a partir do Concílio Vaticano II, incluindo sua contribuição para o debate bioético. Fruto do diálogo com as ciências humanas, documentos como a Constituição Pastoral Gaudium et Spes abrem caminho para superar a dicotomia do ser humano, afirmada por séculos, e reconhecer seu ser como um todo em sua unidade e totalidade.  “Corpore et anima unus (uno de alma e corpo.” (Catecismo da Igreja Católica, 1999, n. 362). Ser humano, em sua totalidade imagem e semelhança de Deus, exaltada por Cristo. "O Filho de Deus, no mistério da Encarnação, confirmou a dignidade do corpo e da alma, constitutivos do ser humano. Cristo não desdenhou a corporeidade humana, mas revelou plenamente o seu significado e valor" (Congregação para a Doutrina da Fé, 2008, n. 7).
O corpo, que já foi considerado um mal necessário para a subsistência da alma, hoje, na perspectiva de visão integral do ser humano, é reconhecido como essencial para a identidade do ser humano. O ser humano, que é pessoa com dignidade em todos os momentos e circunstâncias, pelo corpo estabelece relações e significados.  É na corporeidade que constrói e revela sua identidade, aquela essência que o torna único e distinto dos demais. É no reconhecimento do corpo, com suas dimensões próprias, que se pode afirmar sua capacidade de transcendê-lo, a sua capacidade intrínseca de ter fé. “O homem é capaz de Deus” (CIC, 27-30)
Dissemos recuperação da visão original do ser humano, pois na raiz da fé cristã, em sua Palavra Sagrada, ele foi sempre imagem de Deus, em sua totalidade. “A antropologia bíblica exclui o dualismo mente-corpo. O ser humano é considerado aí na sua integridade. Entre os termos hebraicos fundamentais usados no AT para designar o ser humano, nefesh significa a vida de uma pessoa concreta que está viva (Gn 9,4; Lv 24,17-18; Pr 8,35). Mas o ser humano não tem um nefesh, ele é um nefesh. (Comissão Teológica Internacional, 2004, n. 28). Já o termo basar se refere à carne dos animais e dos humanos, e às vezes ao corpo no seu conjunto (Lv 4,11; 26,29). Também neste caso, o homem não tem um basar, mas é basar. O termo neotestamentário sarx (carne) pode denotar a corporeidade material do ser humano (2Cor 12,7), mas também a pessoa no seu conjunto (Rm 8,6). Outro termo grego, soma (corpo), refere-se ao ser humano inteiro, pondo a ênfase na sua manifestação exterior. Também aqui o homem não possui um corpo, mas é seu corpo. ” (Comunhão e Serviço n. 28).
Unicidade: o indivíduo tem relação com o código genético de seus progenitores e ao mesmo tempo seu patrimônio genético é novo e único. A expressão unitotalidade, marcante, da abordagem personalista, surge para definir um novo paradigma sobre a pessoa. A distinção das diferentes dimensões de uma mesma realidade não é sinônimo de separação e independência das partes. As reminiscências da dicotomia corpo e alma e do mecanicismo, que pressupõe o funcionamento do organismo segundo uma mecânica pré-definida inalterável, são superados nesta abordagem. “Por força da sua união substancial com uma alma espiritual, o corpo humano não pode ser considerado apenas como um conjunto de tecidos, órgãos e funções, nem pode ser avaliado com o mesmo critério do corpo dos animais. Ele é parte constitutiva da pessoa que através dele se manifesta e se exprime.” (Congregação para a Doutrina da Fé, 1987, n. 3). Portanto, a verdade sobre o ser humano, a verdade revelada, trata de um ser constituído de diversas dimensões relevantes para sua existência histórica e sua esperança escatológica. Em Deus, o Filho, o ser humano se conhece e reconhece. “A verdade revelada é verdade de salvação. É justamente essa verdade que nos diz quem é o homem, fazendo-nos conhecer ao que ele é chamado; precisamos pressupor uma coerência fundamental entre nosso ser e o nosso destino se não queremos que este último apareça como algo meramente exterior a nós mesmos.” (Ladaria, 2007, p. 12). O sentido pleno implica na dupla realidade: presente e futura. A esperança na Ressurreição em Cristo ilumina e significa a realidade presente. Por isso, nenhuma dimensão da experiência humana no tempo e na história pode ser vista como algo inútil e secundário. Sobretudo, porque ela é em vista da Ressurreição em Cristo.
Viver no corpo é viver em movimento em busca do sentido último da existência. Trata-se de um movimento não repetitivo, mas sempre novo, rumo à sua própria realização plena. “O corpo não apenas estabelece a relação com o mundo como também confere ao mundo significados sempre novos, transcendendo continuamente as próprias experiências e os significados precedentes.” (Sgreccia, 1996, p. 126). A experiência humana é uma experiência de limites, próprios do espaço e do tempo. O corpo, no mundo das ciências, pode ser descrito com suas propriedades físicas e leis próprias que regem o desenvolvimento biológico, mas não pode ser reduzido “um simples complexo de órgãos, funções e energias, que há de ser usado segundo critérios de mero prazer e eficiência”. (João Paulo II, 1995, n. 23). O corpo tem dignidade própria não podendo ser idolatrado e nem menosprezado. Ele não é a única dimensão da vida humana, porém, essencial para que as outras dimensões possam manifestar-se. “No homem, a personalidade subsiste na individualidade constituída por um corpo animado e estruturado por um espírito.” (Sgreccia, 1996, p. 79). Olhando para Jesus, vemos que o corpo ocupa um importante espaço para sua missão. Ele se volta à pessoa como um todo, portanto, também à sua dimensão corpórea. “A missão de Jesus, com as numerosas curas realizadas, indica quanto Deus tem a peito também a vida corporal da pessoa.” (João Paulo II, 1995, n. 47, grifo do original). Através de uma série de reflexões teológicas sobre o corpo, hoje reunidas sob o tema Teologia do Corpo, João Paulo II lança uma nova luz sobre o corpo. Apresenta os desafios do reducionismo tanto numa como em outra dimensão da vida humana devido ao significado identificado na sua totalidade. “O homem cessa, por assim dizer, de identificar-se subjetivamente com o próprio corpo, porque privado do significado e da dignidade derivantes de este corpo ser próprio da pessoa. Encontramo-nos aqui no limite de problemas, que muitas vezes exigem soluções fundamentais, impossíveis sem uma visão integral do homem”. (João Paulo II, 1981).  

Bibliografia

COMISSÃO Teológica Internacional. Comunhão e Serviço: A pessoa humana criada à imagem de Deus, 2004. Disponível em: <http://www.vatican.va/roman_curia/ congregations/cfaith/cti_documents/rc_con_cfaith_doc_20040723_communionstewardship_po.html> Acesso em: 25 ago. 2013.

JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Evangelium Vitae. Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_25031995_evangelium-vitae.pdf>. Acesso em: 20 dez. 2016.

LADARIA, Luis. Introdução à Antropologia Teológica. São Paulo: Loyola 2007.

12 de abr. de 2017

Thanatos: a morte - dilemas éticos

Texto: teóloga Dr.ª Geni Maria Hoss (HOSS, Geni Maria)
Disponível em: www.genihoss.blogspot.com.br

Thanatos, na mitologia grega, significa morte. O termo deu origem aos neologismos próprios do fim da vida. Thanatos também deu origem ao termo que define os estudos científicos sobre a morte: a tanatologia. Também deste termo surgiram as palavras com sufixo tanásia (de Thanatos) que especificam de forma precisa as diferentes condições do fim da vida. 
Com os avanços tecnológicos, lidar com o fim da vida tornou-se mais uma questão de decisão do que de destino.
Iniciamos pelo termo mais conhecido, a eutanásia, usado por Francis Bacon, em sua obra Historia vitae et mortis, 1623, com o significado de boa morte. Boa morte significando intervenção para abreviar a vida, caso viver signifique desconforto e sofrimentos.
Hoje classifica-se a eutanásia em algumas categorias distintas de acordo com o procedimento adotado:
·         Ativa: ação com intenção direta de provocar a morte;
·         Passiva: morte decorrente de omissão intencional;
·         Duplo efeito: morte como efeito colateral de uma ação com a intenção de amenizar o sofrimento.
O duplo efeito, quando garantida a intenção do bem-estar do paciente e está excluída a intenção de provocar a morte, sendo esta apenas uma consequência natural, a Igreja Católica considera admissível. Daí o cuidado preliminar de esclarecer a situação, averiguar as reais intenções e conhecer profundamente o significado das terminologias próprias do fim da vida. É admissível, porque não é eutanásia e, sim, um procedimento próprio dos cuidados paliativos.   
A possibilidade de prolongar, isto é, distancia a morte, denomina-se de distanásia
O termo foi usado por Georges Morache, Naissance et Mort, Paris, 1904. A distanásia se dá pelo uso desproporcional de terapêuticas e biotecnologias, ou seja, a “obstinação terapêutica”. Usam-se meios terapêuticos, mesmo após ser constatada a morte irreversível e iminente. Os pacientes geralmente passam longos períodos em Centros de Tratamento Intensivo, sendo mantidos os sinais vitais através de tecnologias complexas e onerosas em todos os sentidos. Os cuidados clínicos não têm mais efeito terapêutico. A dificuldade de aceitar a finitude da vida por parte dos profissionais de saúde, preparados para curar e não tanto para cuidar, e dos familiares ou responsáveis, que não sabem lidar com uma possível perda de um ente querido, muitas vezes apenas prolonga o sofrimento dos pacientes uma vez que o ambiente de um CTI não permite os mesmos vínculos com os familiares do que um outro ambiente no hospital ou, inclusive, em casa.  É preciso assegurar: usar todos os meios terapêuticos disponíveis desde que haja condições para que produzam efeito positivo e não se tornem apenas processos de distanciar a morte.
Outro termo da área, bastante desconhecido, é mistanásia, ou seja, a eutanásia social ou morte triste. O termo foi exposto de forma clara por Leonard Martin, Introdução à Bioética, (1998). Trata-se da morte prematura em função de omissão de socorro, erro médico, imprudência, negligência.  O tratamento está disponível, mas alguns fatores impedem que o paciente tenha acesso a ele. Geralmente são de ordem socioeconômica, deficiências nos sistemas públicos de saúde bem como da qualidade dos profissionais envolvidos na assistência. Neste último caso, existe uma responsabilidade marcante desde a formação dos novos médicos e sua habilidade de prestar assistência qualificada e humanizada e sua postura moral e ética.
Se tanto a eutanásia, distanásia e mistanásia são moralmente inadmissíveis, segundo o ensinamento do Magistério, temos de falar de ortotanásia, ou seja, da morte natural. “A interrupção de procedimentos médicos onerosos, perigosos, extraordinários ou desproporcionais aos resultados esperados pode ser legítima É a rejeição da ‘obstinação terapêutica’. Não se quer dessa maneira provocar a morte; aceita-se não poder impedi-la” (CIC n. 2.278). O legítimo é investir em terapêuticas enquanto há possibilidade de efeito desejado, porém, quando da sua impossibilidade, aceita-se a morte como processo inerente à própria vida. As decisões sobre a forma de cuidado terapêutico ou não, no entanto, devem ser tomadas com o consentimento do paciente ou seu representante legal.  Aqui não se pode esquecer a magnífica encíclica viva de S. João Paulo II. Numa frase, na verdade suas útlimas palavras, ele selou o pensamento da Igreja sobre a morte: “Deixem-me ir para a Casa do Pai! Algumas pessoas não acostumadas com uma relação tão natural com a morte, fizeram duras críticas quanto a esta postura de S. João Paulo II, sugerindo, inclusive, que poderia ser eutanásia. Mas a esperança cristã nos coloca diante da morte como passagem, chegada a hora, sabemos que devemos aceita-la não como um fim, mas como sentido último da nossa própria vida na história.
 Cicely Saunders (1918-2005), ao se deparar com pacientes em fase terminal, ela constatou: mesmo aqueles que desejavam a eutanásia, depois de receber atendimento humanizado, encontraram um novo sentido para esta fase e condição de vida. Em 1967, ela fundou o Hospice St. Christopher. Hospice, uma palavra inglesa, é não só um lugar, mas também uma filosofia do cuidado para a humanização do fim da vida, ou seja, cuidados paliativos. A ideia central é o cuidado e conforto físico, psíquico e espiritual, o apoio aos familiares e cuidadores. A espiritualidade que, de maneira única, é uma relevante dimensão capaz de garantir sentido de vida em condições difíceis como é a experiência da finitude. Nesta fase, é importante assegurar ao doente os laços sociais, o lazer adaptado às suas condições, comunicação, autonomia, assistência espiritual segundo sua profissão de fé (no caso dos católicos, a recepção dos sacramentos).
Sobre os cuidados paliativos, a Igreja ensina:  "Os cuidados paliativos constituem uma forma privilegiada de caridade desinteressada. Por essa razão, devem ser encorajados“ (CIC n. 2.279)
É especialmente neste tempo de cuidados paliativos que a pessoa se ocupa com a morte. Para cada caso, existe um delicado processo de assimilar a comunicação da de morte iminente. Elizabeth Kübler Ross (1926-2004), em 1969, escreveu um livro conclusivo de sua experiência junto a pessoas diante da morte próxima. Na publicação, On death and dying (Sobre a morte e o morrer), ela expõe alguns passos que antecedem à morte. Assumimos aqui as diferentes manifestações da pessoa, porém, a ordem e a intensidade e entendida como algo muito pessoal. Isto porque pode haver avanços e recaídas. 1. Negação; 2. Raiva; 3. Barganha; 4. Depressão; 5. Aceitação. No livro acima citado, lemos:
Negação:
“Não, eu não, não pode ser verdade!” (p. 51)
Raiva:
“Não, não é verdade, isso não pode acontecer comigo!” (p. 63)
Barganha:
 “Se Deus decidiu levar-me deste mundo e não atendeu meus apelos cheios de ira, talvez seja mais condescendente se eu apelar com calma“ (p. 95)
Depressão:
“Estou tão triste, me sinto sozinho, me deixem em paz!”
Aceitação:
“Não tem mais o que fazer, vou me preparar!” (Disposto a resolver questões pendentes).

O sentido cristão da morte

O paradigma da unitotalidade da pessoa, ou seja, da pessoa integral, sem dicotomia corpo e alma, implica num modo próprio de lidar com a morte e a realização de ritos próprios. “Graças a Cristo, a morte cristã tem um significado positivo. (...) ‘Para os que creem em vós, Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma’” (Congregação para a Doutrina da Fé, 2016, n. 2).
Todo o rito fúnebre religioso está voltado à fé na ressurreição e o respeito pela dignidade do corpo: “A grande dignidade do corpo humano como parte integrante da pessoa da qual o corpo partilha a história”. (Congregação para a Doutrina da Fé, 2016, n. 3).
Vislumbrando possibilidades sempre mais concretas de vida longa e ao mesmo tempo com dificuldade de lidar com condições não superáveis, desenvolveu-se nos últimos anos uma série de procedimentos para mascarar a morte. A necromaquiagem disfarça de tal maneira a real condição do corpo, que os sinais próprios de morte ficam mascaradas. Este cuidado excessivo, na verdade, revela a dificuldade de se confrontar com a finitude.
Um ponto relevante sobre o cuidado do corpo, ou melhor, seu repouso eterno é a questão da cremação.  “A Igreja não vê razões doutrinais para impedir tal práxis”, porém, a preservação das cinzas deve ser em lugar sagrado (cf. Congregação para a Doutrina da Fé, 2016, n. 4).



Bibliografia

CATECISMO da Igreja Católica. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Loyola, 1999.

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração sobre a Eutanásia. Disponível em: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19800505_euthanasia_po.html. Acesso em: 20 mar. 2017.

 ______Instrução Ad resurgendum cum Christo a propósito da sepultura dos defuntos e da conservação das (...) cinzas da cremação. Disponível em:<http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20160815_ad-resurgendum-cum-christo_po.html>. Acesso em: 5 nov. 2016.

KÜBLER ROSS, E. Sobre a morte e o morrer. Rio de Janeiro: Editora Martins Fontes, 1985.



10 de abr. de 2017

Movimentos, associações e serviços eclesiais

Publicamos o relatório da teóloga Dr.ª Geni Maria Hoss (HOSS, Geni Maria) Disponível em: www.genihoss.blogspot.com

Reunião de dirigentes das Associações Laicais Movimentos e Serviços Eclesiais 17 a 19 de março de 2017 Centro de Formação Mariápolis Ginetta - Vargem Grande Paulista, SP

Diversos movimentos eclesiais e associações atenderam ao convite para mais uma reunião (9ª) convocada pela comissão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para o Laicato e Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB). Os assessores foram a professora Lúcia Pedrosa, PUC-Rio, prof. Francisco Catão. D. Remídio Bohn, bispo de Cachoeira do Sul, RS, um dos assessores da comissão da CNBB para o Laicato também se fez presente e deixou sua mensagem por ocasião das celebrações eucarísticas e outros momentos específicos. O objetivo proposto para o evento foi: “aprofundar a comunhão entre os carismas, em vista de uma eficaz e provocadora revitalização das associações laicais, dos movimentos e serviços eclesiais na Igreja e na Sociedade”. Na reunião foram apresentados e debatidos dois relevantes documentos relativos à missão dos leigos: 1. Documento 105 da CNBB: “Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade – Sal da Terra e Luz do mundo (aprovado na Assembleia Geral de Aparecida, em abril de 2016). 2. Carta Iuvenescit Ecclesia (a Igreja rejuvenesce), sobe a relação entre os dons hierárquicos e carismáticos (promulgado pela Congregação da Doutrina da Fé na Solenidade de Pentecostes em 2016). Na primeira apresentação, a Prof.ª Lúcia Pedrosa, mostrou a estrutura do documento, dividido em três grandes temas: a. O mundo atual – esperanças e angústias; b. O sujeito eclesial: cidadãos e discípulos missionários; c. A ação transformadora na Igreja e no mundo. A passagem evangélica que, por partes, ilumina cada subtema: “Vós sois o sal da terra. Se o sal perde o sabor, com que lhe será restituído o sabor?” (Mt 3, 13). O leigo é o sal da terra: O sal dá sabor, cauteriza as feridas e preserva da corrupção. O documento se concentra na missão do leigo “como verdadeiro sujeito eclesial” (n. 1). Ele é sujeito na vida interna da Igreja e na ação no mundo à luz dos valores do Evangelho. Sua “vocação própria é administrar e ordenar as coisas temporais em busca do Reino de Deus” (n.5). Sua tarefa como sujeito eclesial na sociedade é abrangente: “sua primeira e imediata tarefa é o vasto e complicado mundo da política, da realidade social, da economia, da cultura, das ciências e das artes, etc” (n.6). “Seu mandato de caridade alcança todas as dimensões da existência, todas as pessoas, todos os ambientes da convivência e todos os povos. Nada do humano pode lhe parecer estranho.” (Papa Francisco, Evangelium Gaudium, EG, 2013, n. 181). Cabe ao leigo também “participar na ação pastoral da Igreja” (n.7), como “verdadeiros sujeitos eclesiais” (n.10). O documento apresenta alguns desafios em relação à inserção no mundo e ao discernimento. É preciso superar a atitude negativa em relação ao mundo. Para isso há necessidade de discernimento. Não são as modernas tecnologias que são ruins, mas a forma e finalidade com que a usamos. As formas cada vez mais sofisticadas de comunicação instantânea não são ruins em si mesmas, pois podem ser usadas para a Evangelização. No entanto, podem se tornar meios de dependência sempre mais acentuada de modo que prejudique a pessoa e interfira nas relações humanas. Ainda falta conscientização sobre a autêntica missão do leigo, que o Papa Bento XVI assim apresenta:
 “A corresponsabilidade exige uma mudança de mentalidade, relativa, em particular, ao papel dos leigos na Igreja, que devem ser considerados não como ‘colaboradores’ do clero, mas como pessoas realmente ‘corresponsáveis’ do ser e do agir da Igreja. Por conseguinte, é importante que se consolide um laicato maduro e comprometido, capaz de oferecer a sua contribuição específica para a missão eclesial, no respeito pelos ministérios e pelas tarefas que cada um desempenha na vida da Igreja, e sempre em comunhão cordial com os bispos” (Bento XVI, no Foro Internacional da Ação Católica, 2012) A presença muito tímida na sociedade tem sido preocupação da Igreja, especialmente abordada pelo Papa na EG n. 81ss. Ele ressalta, sobretudo, a falta de engajamento e uma espécie de fuga do comprometimento cristão: “Quando mais precisamos dum dinamismo missionário que leve sal e luz ao mundo, muitos leigos temem que alguém os convide a realizar alguma tarefa apostólica e procuram fugir de qualquer compromisso que lhes possa roubar o tempo livre.” (Papa Francisco, 2013, n. 81). Mas não é só o reconhecimento da missão do leigo como tal que vai tornar a Igreja mais dinâmica e mais coerente com sua autoimagem de Povo de Deus, de Igreja em saída. É preciso que o próprio leigo se prepare e assuma esta missão. As referências deste desafio foram abordadas no Documento de Aparecida (processo de formação dos discípulos missionários, n. 276ss). Outro momento de estudo e reflexão foi orientado pelo prof. Francisco Catão (na época do Concílio Vaticano II, era estudante de Teologia em Roma o que lhe permitiu participar como ‘ouvinte’ dos debates dos teólogos assessores do Concílio). O prof. Catão esclareceu a terminologia “Povo de Deus”, paradigma eclesiológico do Concílio Vaticano II, mas que muitas vezes é atribuída apenas aos leigos, acentuando uma Igreja dividida. Segundo Catão, a Igreja é Povo de Deus, porém, Povo de Deus ordenado, ou seja, onde há funções próprias de acordo com o modo de pertença. Há diferenças entre leigos e clérigos, porém, todos estão a serviço da mesma Igreja, o que constitui o laço de unidade da Igreja. A comissão do documento 105 também teve o cuidado de afirmar este conceito: “Todo o Povo de Deus, leigos, vida consagrada, diáconos, presbíteros e bispos, caminhando para a realização da plenitude do Reino.” (D. Leonardo U. Steiner, Doc. 105, introdução). Aqui cabem também as palavras do Papa Francisco: “É através do Batismo que nós somos introduzidos neste povo, através da fé em Cristo, dom de Deus que deve ser alimentado e crescer em toda a nossa vida.” (Audiência geral, 12/06/2013). Segundo a carta Iuvenescit Ecclesia (IE), a diversidade de carismas (dons divinos) é ação do Espírito Santo. Nos últimos anos, a Igreja foi enriquecida com multiformes agregações eclesiais: “Tanto antes como depois do Concílio Vaticano II, surgiram numerosas agregações eclesiais que constituem uma grande fonte de renovação para a Igreja e para a urgente «conversão pastoral e missionária»6 de toda a vida eclesial.“ (IE n.2) Os dons hierárquicos e dons carismáticos são igualmente relevantes para a vida e dinâmica da Igreja: João Paulo II (1998), disse: “Repetidas vezes sublinhei que na Igreja não existe contraste nem contradição entre a dimensão institucional e a dimensão carismática, da qual os Movimentos são uma expressão importante. Tanto uma como outra são co-essenciais na constituição divina da Igreja fundada por Jesus, uma vez que concorrem conjuntamente para tornar presente o mistério de Cristo e a sua obra salvífica no mundo”1 Bento XVI confirma o seu antecessor e acrescenta a necessidade de um certo ordenamento das novas realidades eclesiais. “Ambas as dimensões, originárias do Espírito Santo através do Corpo de Cristo, concorrem conjuntamente para tornar presente o mistério e a obra salvífica de Cristo no mundo”.2 O prof. Catão chamou a atenção para o fato que Papas anteriores se terem preocupado com a interpretação do Concílio e agora, com o Papa Francisco, vivemos um momento histórico, pois a principal preocupação é viver o Concílio. O principal, segundo ele, é não entender a Igreja como hierarquia à qual pertencem leigos, mas comunhão de pessoas livres, comunhão de homens e mulheres, presidida por Jesus e animada pelo Espírito Santo. Houve um debate intenso e compartilhamento em grupos sobre o documento 105, sobre os leigos e leigas, e diversas referências quanto a ações concretas durante o Ano do Laicato, 2017 – 2018, com início e fim marcados para a Festa de Cristo Rei, Dia do Laicato. Os debates resultaram em questionamento para todos os Movimentos e Serviços Eclesiais: Como compartilhar e viver os temas abordados nos documentos estudados em cada realidade? Como viver na prática o Ano do Laicato em sua associação / movimento, na Igreja local?

Participaram do evento os seguintes movimentos, serviços sociais e associações eclesiais:

1.      Movimento Cursilhos de Cristandade              
2.      Movimento Familiar Cristão
3.      Movimento dos Focolares
4.      Movimento Fé e Luz
5.      Movimento de Trabalhadores Cristãos
6.      Movimento Comunhão e Libertação
7.      Movimento de Schoenstatt
8.      Encontro Matrimonial Mundial
9.      Equipes Docentes
10.  Instituição Teresiana
11.  Legião de Maria
12.  Ordem Franciscana Secular
13.  Jufra-Juventude Franciscana
14.  CVX-Comunidades de Vida Cristã
15.  Comunidades Nossa Senhora da Esperança
16.  Congregações Marianas
17.  Obra Kolping do Brasil
18.  CONISB-Confederação Nacional das Irmandades de S. Benedito
Curitiba, 25 de março de 2017.
Geni Maria Hoss

2 de abr. de 2017

Campanha da Fraternidade 2017 - CF 2017

Sobre nossa reflexão: 
Obrigado a todos os que tiraram um pouco de tempo para refletir sobre a CF 2017 e Laudato Si. Olhando para as avaliações, foi positivo o que a assessora Dr.ª Geni Maria Hoss nos motivou a refletir. "Somos seres interconectados e interdependentes, porém, não fundidos. Cada qual tem e preserva suas particularidades e delas advém exigências próprias. Todos somos criaturas com 'leis internas próprias', dadas pelo Criador. À ciência cabe desvendar, quanto lhe é possível, os mistérios da dinâmica da vida no intuito de que sejam respeitados e reconstituídos, quando a natureza viva é afetada por uma patologia. Também o equilíbrio do meio ambiente é uma tarefa séria e contínua das ciências." Um novo ambiente criado artificialmente pode danificar o meio ambiente. É preciso cuidar o ambiente como ele se apresenta. Reflorestamento é bom quando tenta reconstituir o bioma original. Não há nada insignificante no meio ambiente, não há nada insignificante nas interconexões dos diferentes seres vivos. O animal não pode ser humanizado e, sim, animalizado.... ou seja, ser tratado de acordo com seu estilo de vida. Há muitos animais com doenças próprias dos humanos atuais, porque participam de seu estilo de vida, que de muitos modos é prejudicial à saúde animal. Os animais precisam de mais liberdade e movimento, precisam desenvolver melhor os seus instintos próprios de sobrevivência. Retirá-los de modo radical de seu ambiente e depois abandoná-los na rua é que se torna um grande problema, pois não desenvolveram habilidades de sobrevivência. Uma vez destituídos de seu desenvolvimento natural, necessitam de cuidado especial.