Espírito Santo, tu és a alma da minha alma....
17 de jul. de 2015
16 de jul. de 2015
Oração do Espírito Santo
Espírito Santo, tu és a alma da minha alma!
Cheio de humildade te adoro.
Ilumina-me, fortifica-me,
guia-me e consola-me.
Revela-me, tanto quanto isso
ao plano do eterno Pai corresponde,
revela-me os teus desejos.
Faze-me entender o que
o amor eterno de mim deseja.
Faze-me entender o que devo fazer.
Faze-me entender o que devo sofrer.
Faze-me entender o que,
em silêncio e modéstia e reflexão,
devo aceitar, carregar e suportar.
Sim, Espírito Santo, faze-me entender
a tua vontade e a vontade do Pai.
Pois, minha vida inteira não quer ser mais
que um contínuo e perpétuo sim
aos desejos e ao querer do eterno Pai.
(J. Kentenich)
Cheio de humildade te adoro.
Ilumina-me, fortifica-me,
guia-me e consola-me.
Revela-me, tanto quanto isso
ao plano do eterno Pai corresponde,
revela-me os teus desejos.
Faze-me entender o que
o amor eterno de mim deseja.
Faze-me entender o que devo fazer.
Faze-me entender o que devo sofrer.
Faze-me entender o que,
em silêncio e modéstia e reflexão,
devo aceitar, carregar e suportar.
Sim, Espírito Santo, faze-me entender
a tua vontade e a vontade do Pai.
Pois, minha vida inteira não quer ser mais
que um contínuo e perpétuo sim
aos desejos e ao querer do eterno Pai.
(J. Kentenich)
13 de jul. de 2015
CARTA ENCÍCLICA LAUDATO SI, PAPA FRANCISCO, 2015. - Alguns pensamentos do documento pontifício - (Geni Maria Hoss)
CARTA ENCÍCLICA LAUDATO SI, PAPA FRANCISCO, 2015.
- Alguns pensamentos do documento pontifício -
Geni Maria Hoss[1]
A Carta
Encíclica é de grande relevância por sistematizar o pensamento ecológico à luz
da fé cristã e interpelar os cristãos e todas as pessoas de boa vontade à
responsabilidade ética para com o meio ambiente. Em se tratando do meio
ambiente, da questão ecológica como tema teológico-pastoral no ambiente
cristão, vários documentos e mensagens do Magistério e de Conselhos Pontifícios
apresentaram reflexões sobre a questão socioambiental. O Papa Paulo VI, na
mensagem enviada ao Secretário Geral da Conferência Internacional das Nações
Unidas sobre o Ambiente, realizada em Estocolmo, em 1972, falava sobre empenho
necessário para salvaguardar a “bonita casa, ordenada no respeito por todas as
coisas” (PAULO VI, 1972). É também nesta época que surgiram vozes denunciando
as comunidades judaico-cristãs de contribuírem substancialmente, a partir da
leitura da Palavra Sagrada, na destruição do meio ambiente. Lynn White (1970),
da Universidade da Califórnia, afirma que o poder dado pelo Criador permitiu o
uso inconsequente dos bens da natureza. Carl Amery, publica o livro O fim da Providência: As consequências
impiedosas do cristianismo (Cf. SATTLER; SCHNEIDER, 2002, p. 15)[2] , no qual
sustenta que os cristãos têm responsabilidade pela atual crise ecológica. Em
tempos mais recentes, Bernard Stefan Eck, ao fazer a análise crítica dos
escritos de Albert Schweitzer sobre a ética
pela vida, diz que “pode ser considerado como tragédia da vida de
Schweitzer ter de filosofar sob o impacto do lixo do pensar e crer cristãos”
(ECK, 2003) . É um tema transversal às diversas
religiões, culturas e sociedades e a contribuição de cada segmento para a
destruição dos bens comuns hoje e no futuro, só podem ser admitidas a partir do
ser e estar no mundo inconsequente, motivado, entre outros, pelas facilidades,
pelo hedonismo e pela busca desenfreada do sucesso meramente econômico.
Esta casa comum
está correndo o grande risco de sucumbir e não poder mais abrigar a vida. Por
isso, nos últimos anos, a questão ecológica vinha ocupando espaço, embora
tímido, em documentos pontifícios e mensagens para determinadas ocasiões como
congressos sobre o meio ambiente organizados pelas Nações Unidas (ONU) ou em
datas relativas ao tema. Só para citar alguns, cabe aqui ressaltar a mensagem
de São João Paulo II, em 1.º de janeiro de 1990, cujo tema “Paz com Deus – Paz com toda a criação!” se
tornou como que um lema, cujos desdobramentos aparecem em diversas publicações
teológicas sobre o meio ambiente. Vários parágrafos do Catecismo da Igreja
Católica (1992) se ocupa com a questão da vida humana e de todas as formas da
vida. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja – capítulo X: Salvaguardar o
meio ambiente - (2004) integra o tema na questão social. A Comissão Teológica
Internacional (2004) publicou o documento Comunhão
e Serviço, sobre o ser humano imago
Dei e lhe atribui a incumbência dada por Deus de ser “administrador das
coisas visíveis”.
É louvável e
oportuno que a Igreja tenha um documento, ou seja, a Carta Encíclica Laudato
Si, onde sistematiza de forma ampla e integrada um tema de extrema relevância
para os cristãos e toda a família humana. “Louvado sejas, meu Senhor”, título
que remete ao Cântico das Criaturas, indica a visão da casa comum pautada no
pensamento de São Francisco, que se tornou referência para diversos povos na
relação com o as criaturas. A Terra, segundo afirma o Papa Francisco, “se pode
comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe,
que nos acolhe nos seus braços” (1). Somos constituídos pelos mesmos elementos
do planeta e isto nos identifica com todo o ser criado. Além disso, necessitamos
das criaturas para existirmos: o ar, a água, as bactérias ...
A encíclica
discorre sobre temas relevantes e convergentes sobre a vida sobre os desafios
relativos ao cuidado do planeta e suas implicações na vivência da fé em Deus
Criador de todas as coisas. Existem interdependências significativas tanto
entre as diversas formas de vida bem como entre as diversas dimensões da
família humana. Trata-se de uma abordagem ampla e de múltiplas interpelações
para os cristãos e toda a família humana.
A Encíclica é
composta por seis capítulos, assim distribuídos: 1. Confronto com a Bíblia e a
tradição judaico-cristã. 2. Raiz dos problemas. 3. Tecnocracia e fechamento no
ser humano. 4. Ecologia integral. 5. Vida social, econômica e política;
diálogo. 6. Educação. Esta breve reflexão não avalia capítulo por capítulo, mas
aborda pontos relevantes de cada capítulo, seguidos sempre do número
correspondente na encíclica Laudato Si.
1 O cuidado da casa comum.
O cuidado da
casa de todos é tarefa de todos. Por isso, o Papa Francisco se dirige de forma
ampla “a cada pessoa que habita neste planeta” (3). “Nesta encíclica, pretendo
especialmente entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum”. Para os
cristãos, o cuidado da criação é questão fundamental da fé. Retomando o
pensamento de São João Paulo II, o Papa Francisco diz: “Os cristãos, em
particular, advertem que a sua tarefa no seio da criação e os seus deveres em
relação à natureza e ao Criador fazem parte da sua fé” (64). Entende-se que os
fiéis católicos são os primeiros destinatários da Carta Encíclica Laudato Si e
são chamados a assumir com maior engajamento a incumbência confiada pelo
próprio Criador, que significa uma “relação de reciprocidade responsável entre o ser
humano e a natureza” (67).
1.1 Aspectos introdutórios da encíclica laudato si.
A urgência
socioambiental aponta para uma problemática comportamental do ser humano, para
uma deficiência da educação para o cuidado da Terra, pois segundo o Papa
Francisco “crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores,
autorizados a saqueá-la” (2). E por termos sido destruidores vorazes do meio
ambiente verificamos que “entre os pobres mais abandonados e maltratados,
conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que ‘geme e sofre as dores do
parto’ (Rm 8, 22)” (2). A responsabilidade pelo cuidado socioambiental não é
tarefa de determinados segmentos da sociedade, mas de todos, embora de forma
diferenciada.
No lugar de
uma abordagem catastrófica de muitos autores da área, lemos na encíclica uma
mensagem de esperança, pautada na essência da fé cristã, sem, contudo, deixar
de alertar para a seriedade da questão ecológica, que não é uma questão
isolada. “Não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem
ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos
debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor
dos pobres” (49). É um desafio profundamente entrelaçado com a questão social.
O cuidado do planeta exige sério comprometimento sustentado pela esperança, o
que dá sentido à mudança de rumo. Diz o Papa: “A esperança convida-nos a
reconhecer que sempre há uma saída, sempre podemos mudar de rumo, sempre
podemos fazer alguma coisa para resolver os problemas” (61). O Papa pontua os
principais riscos da nossa casa comum a serem superados para um mundo mais
humanizado e harmonioso, é nestes aspectos fundamentais que a humanidade
precisa tomar um novo rumo sob pena de sua própria extinção.
1.2 Urgências ecológicas.
Mudanças climáticas: Nas últimas décadas
pesquisadores vem chamando a atenção para as mudanças climáticas[3]. A este respeito, diz o Papa
Francisco: “As mudanças climáticas são um problema global com graves
implicações ambientais, sociais, económicas, distributivas e políticas,
constituindo actualmente um dos principais desafios para a humanidade” (25). Ele continua: “O clima
é um bem comum, um bem de todos e para todos” (23). Como bem comum, mais uma vez são os mais
vulneráveis, os pobres, que sofrem o maior impacto. Aqueles “que detêm mais
recursos e poder económico ou político parecem concentrar-se sobretudo em
mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas” (26). Considerando os poucos
resultados que se tem conseguido até agora, o Papa alerta: “A falta
de reacções diante destes dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda
do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda
toda a sociedade civil” (25).
A água: Sobre esta questão, o Papa diz:
“o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e
universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição
para o exercício dos outros direitos humanos” (30). A escassez de água potável
é tema de longa data por parte do Magistério, pois atinge especialmente os
pobres, desprovidos de condições para possui-la, entre outros, pelo risco de
privatização deste bem comum fundamental, por causa dos processos de distribuição
ampla e justa onerosos e insuficientes, pelo excessivo consumo de água pelos
latifúndios, pelos agigantados processos de industrialização para atender as
demandas do consumismo.
A biodiversidade: cada ser vivo, cada
elemento da natureza tem um valor em si mesmo e exerce importante função na
relação com o todo. Nada é inútil ou fútil, cada coisa tem um sentido próprio.
Cada elemento merece respeito e cuidado pelo fato de existir, porque este
existir é dado por Deus. O domínio do
ser humano – que nunca é absoluto - não pode se arrogar de destruir por
interesses próprios o que Deus criou com amor e para o amor. “Anualmente,
desaparecem milhares de espécies vegetais e animais que já não poderemos
conhecer mais, que os nossos filhos não poderão ver, perdidas para sempre” (33).
Uma sociedade egoísta e consumista “faz com que esta terra onde vivemos se
torne realmente menos rica e bela, cada vez mais limitada e cinzenta, enquanto
ao mesmo tempo o desenvolvimento da tecnologia e das ofertas de consumo
continua a avançar sem limites” (34). Os
avanços tecnológicos permitem intervenções quase ilimitadas e exercem
importante função na destruição da natureza. Mas também é através de
tecnologias cada vez mais sofisticadas que são resolvidos os problemas criados
pelo próprio ser humano. Por isso, de acordo com o Papa Francisco, “são
louváveis e, às vezes, admiráveis os esforços de cientistas e técnicos que
procuram dar solução aos problemas criados pelo ser humano” (34).
A dívida ecológica: a divisão do mundo
em Norte e Sul, por suas peculiaridades, requerem uma relação ética entre estes
dois polos. As relações internacionais sempre foram díspares dadas as
diferenças especialmente na área socioeconômica. Este fator impacta diretamente
sobre as questões ecológicas e implica numa responsabilidade diferenciada no
que concerne aos problemas ambientais. Existe “uma verdadeira ‘dívida
ecológica’” (51), especialmente em se tratando das relações Norte-Sul. Cada
qual tem uma responsabilidade concernente aos estragos em função de seu próprio
desenvolvimento.
Agora, esta
terra maltratada e saqueada se lamenta e os seus gemidos se unem aos de todos
os abandonados, excluídos e descartados da sociedade. O Papa Francisco reitera
e acentua a “mudança de rumos”, pregada por São João Paulo II. Todas as pessoas
e todas as instâncias religiosas e sociais necessitam de uma “conversão
ecológica”. A “conversão ecológica” implica responsabilidade ética e
compromisso para o cuidado da casa comum.
Este apelo nasce da esperança uma
vez que pressupõe que “o ser humano ainda é capaz de intervir de forma
positiva” (58), ou seja, em forma de cuidado do meio ambiente. Ou seja, “a
humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa
comum” (13). É preciso saber assumir as próprias condições de ajudar a
reconstruir e reconstituir o que foi depredado. O reconhecimento da necessidade
de mudança e ação é um primeiro passo para que algo de positivo aconteça na
relação com o meio ambiente. “Nem tudo está perdido, porque os seres humanos,
capazes de tocar o fundo da degradação, podem também superar-se, voltar a escolher
o bem e regenerar-se” (205).
Para o
cuidado da casa comum é necessário um
amplo e contínuo diálogo entre os diversos saberes, entre as religiões, entre
os diversos segmentos da sociedade. O Papa Francisco reconhece o esforço
empenhando para encontrar soluções para as questões ambientais, mas coloca a
humanidade diante da realidade do que ainda é preciso ser feito, o que não é
possível sem o diálogo e cooperação de todos.
O Papa questiona:
“Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que
estão a crescer? (160)” Um questionamento que constitui a razão da Carta Encíclica
Laudato Si e, por isso, é transversal a todos os temas abordados. A resposta é
complexa dadas as interconexões das diferentes dimensões da vida no planeta. A
única forma de vislumbrar um outro mundo passa pela abordagem que contemple os
desafios das diferentes áreas que constituem o tripé da sustentabilidade: o
campo econômico, social e ecológico.
2 Viver em Aliança: comunhão, relações e interdependências
Deus fez
aliança com “todo o ser vivente” e não há como viver, estar vivo, se não for em
aliança, o que implica profundas e constantes interdependências. A experiência
de ser e estar no mundo se pauta na narração da criação. O que Deus criou é
bom, mas o ser humano rompe e destrói o equilíbrio original estabelecido e
desejado por Deus. “Essas narrações [da criação] sugerem que a existência humana
se baseia sobre três relações fundamentais intimamente ligadas: as relações com
Deus, com o próximo e com a terra. Segundo a Bíblia, essas três relações vitais
romperam-se não só exteriormente, mas também dentro de nós. Esta ruptura é o
pecado” (66).
O pecado é
ruptura de relações, destruição dos vínculos em todas as dimensões essenciais
para se alcançar a plenitude da vida e permitir vida no planeta. A ruptura das
complexas e saudáveis relações, no âmbito cristão, resulta de uma leitura e
interpretação equivocada da Sagrada Escritura. “Nós, cristãos,
algumas vezes interpretámos de forma incorrecta as Escrituras, hoje devemos
decididamente rejeitar que, do facto de ser criados à imagem de Deus e do
mandato de dominar a terra, se deduza um domínio absoluto sobre as outras
criaturas” (67). O ser humano é chamado a “cultivar e guardar” (cf.
Gn 2,15). Na carta encíclica Laudato Si lemos que “o meio ambiente é
um bem colectivo, património de toda a humanidade e responsabilidade de todos”
(95). E ainda sobre o
sentido da visão do mundo a partir da fé cristã: “O mundo é algo mais do que um
problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no
louvor” (12). O cuidado incumbido por Deus ao ser humano é um cuidado
desprendido e sempre direcionado para o Criador, pois conforme o Papa afirma,
“o fim último das restantes criaturas não somos nós. Mas todas avançam,
juntamente connosco e através de nós, para a meta comum, que é Deus, numa plenitude
transcendente onde Cristo ressuscitado tudo abraça e ilumina” (83). Para os cristãos, a criação não é divindade,
mas expressão da grandeza e sabedoria do Criador. Nela ele se mostra aos olhos
dos que não o podem ver ainda face a face. “O que é invisível n’Ele – o seu
eterno poder e divindade – tornou-se visível à inteligência, desde a criação do
mundo, nas suas obras” (Rm 1, 20).
2.1 O ser humano e sua posição na criação.
A posição do
ser humano não é do domínio absoluto, contudo preserva uma missão e
características que lhe são próprias e o distinguem das demais criaturas. O seu ser capaz
de Deus, capaz de compreender as coisas e os processos que dinamizam a
vida, capaz de tomar decisões e ser ético, implica usufruir os bens da terra
necessários para a vida e a responsabilidade ética pelo cuidado dos
mesmos. Redimensionar o ser humano do
domínio absoluto para uma experiência de vida compartilhada com as demais,
segundo a encíclica, “não significa igualar todos os seres vivos e tirar ao ser
humano aquele seu valor peculiar que, simultaneamente, implica uma tremenda
responsabilidade” (90). Por outro lado, continua o Papa, não se trata de uma
divinização da terra, pois então “nos privaria da nossa vocação de colaborar
com ela e proteger a sua fragilidade. Estas concepções acabariam por criar
novos desequilíbrios, na tentativa de fugir da realidade que nos interpela”
(90).
A comunhão,
na experiência a partir da própria Trindade, nos aproxima de todas as criaturas
de tal forma que “podemos lamentar a extinção de uma espécie como se fosse uma
mutilação” (89). Antes mesmo dos insistentes apelos dos saberes e da sociedade
em geral, é na vida em aliança, em comunhão com Criador e todas as suas
criaturas, onde estão as raízes e a motivação maior do cuidado socioambiental.
Diz o Papa: “Nós e todos os seres do universo, sendo criados pelo mesmo Pai,
estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família
universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e
humilde” (90).
Aqui se chega
a um ponto controverso muitas vezes por falta de uma concepção integrativa da
vida. Pode-se falar da impossibilidade de amar e cuidar de uns e de outros não,
pois é a mesma experiência de vida e relação ética com a vida. O amor e a
compaixão por uma determinada forma de vida repercute nas demais. Na encíclica lemos
a este respeito: “Não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os
outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura,
compaixão e preocupação pelos seres humanos” (91). Um ponto crítico é a relação ética com os
animais. Se de um lado há uma relação conturbada que lhes tira a possibilidade
de serem tratados segundo as exigências que lhe são próprias, por outro, muitas
vezes estão subjugados aos mandos e desmandos que lhes causam danos e mortes
desnecessários. O Papa diz: “Quando o coração está verdadeiramente aberto a uma
comunhão universal, nada e ninguém fica excluído desta fraternidade” (92). A
comunhão universal implica a inclusão de todas as criaturas e fortalecimento de
laços de amor e respeito.
A indiferença ou a crueldade com as outras criaturas deste
mundo sempre acabam de alguma forma por repercutir-se no tratamento que
reservamos aos outros seres humanos. O coração é um só, e a própria miséria que
leva a maltratar um animal não tarda a manifestar-se na relação com as outras
pessoas. Todo o encarniçamento contra qualquer criatura ‘é contrário à
dignidade humana’ (92).
2.2 Ecologia integral
Viver em
aliança na prática supõe que se considere as complexas interações das
diferentes criaturas e se entenda que tanto o ser individual único está
colocado em seu lugar e posição com propósito próprio, mas também tem sentido e
relevância o modo de estabelecer suas relações com o entorno. Não se trata de
somar os individuais para se formar comunhão, pois esta não é uma mera
somatória de indivíduos e coisas, mas é a forma de se inter-relacionar, ou
seja, uma relação de amor em todas as direções.
Estas interações são sempre únicas e trazem uma nova dinâmica para o
todo.
A ecologia
integral, como é apresentada na encíclica Laudato Si, tem como propósito
avaliar a posição do ser humano no contexto do meio ambiente e suas relações
com este meio, ou seja, com palavras do Papa Francisco, é uma ecologia “que
integre o lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas
relações com a realidade que o circunda” (23). Embora o ser humano e as demais
criaturas sejam distintos entre si e com o Criador, estão profundamente unidos
e interconectados de forma que não se pode ver a natureza “como algo separado
de nós ou como uma mera moldura da nossa vida” (139). As relações humanas não
se estabelecem apenas com o outro humano, mas também com as outras criaturas,
ora de forma individual, ora em sociedade. Portanto, também os ambientes
coletivos sociais e culturais integram o nosso emaranhado de relações. Desta
forma afetam todas as nossas ações cotidianas. “Se tudo está relacionado, também o estado de saúde das instituições duma
sociedade tem consequências no ambiente e na qualidade de vida humana: ‘toda a
lesão da solidariedade e da amizade cívica provoca danos ambientais’” (142). As
interações entre humanos passam pelas instituições e organizações que os
representam e se propõem engajar pelos interesses comuns. Continua o Papa:
A ecologia social é necessariamente institucional e progressivamente
alcança as diferentes dimensões, que vão desde o grupo social primário, a
família, até à vida internacional, passando pela comunidade local e a nação.
Dentro de cada um dos níveis sociais e entre eles, desenvolvem-se as instituições
que regulam as relações humanas (142).
Ecologia integral
reforça as interações das esferas econômicas, sociais e ambientais, dimensões
que constituem o tripé da sustentabilidade. “Não há duas crises separadas, uma
ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socioambiental” (139).
A concepção de ecologia integral e integradora está profundamente
interconectada com a noção de bem comum. O comprometimento com as questões
sociais – a opção preferencial pelos pobres – “é uma exigência ética fundamental para a efectiva realização
do bem comum” (158). Numa sociedade onde as estruturas socioeconômicas geram
sempre mais pessoas privadas de condições econômicas, de direitos fundamentais
são facilmente descartadas, é preciso mais do que regulamentações, um
compromisso sério e contínuo em prol de uma sociedade mais justa e solidária.
O que está na raiz do cuidado, para o cristão, é o sentido
que lhe é dado pela fé. Trata-se de um chamado para cuidar de todas as
criaturas segundo as leis inscritas pelo Criador, que confere a cada espécie um
modo próprio de ser e estar no mundo. “Precisamente pela sua dignidade única e
por ser dotado de inteligência, o ser humano é chamado a respeitar a criação
com as suas leis internas, já que ‘o Senhor fundou a terra com sabedoria’ ( Pr
3, 19)” (69).
3 Desafios ecológicos e discípulos missionários ecoamigáveis
Para formar
discípulos missionários ecoamigáveis
é preciso entender a causa e a extensão da atual crise. Não é possível separar
os campos acima mencionados, mas é preciso delinear cada dimensão para
estabelecer critérios e prioridades para que uma solução seja possível. A análise
da atual situação, conforme apresentado na encíclica permite “individuar não
apenas os seus sintomas, mas também as causas mais profundas” (15).
3.1 O paradigma tecnocrata - antropocentrismo exacerbado.
A tecnologia é abordada de forma incisiva pela sua
relevância na atualidade. As novas tecnologias, cujo desenvolvimento muitas
vezes ultrapassa a capacidade de assimilação do ser humano, invadem amplos
espaços da vida cotidiana tanto no recinto privado e familiar bem como em nível
de sociedade local e global. De um lado, reconhece-se a sua contribuição para a
melhoria das condições de vida, de outro, são apontados os problemas que dela
derivam quando usadas de forma inconsequente, ou seja, quando o bem do ser
humano e de outras formas de vida são excluídas.
Em se tratando dos avanços tecnológicos, em princípio
é justo que nos alegremos com estes progressos e nos
entusiasmemos à vista das amplas possibilidades que nos abrem estas novidades
incessantes, porque ‘a ciência e a tecnologia são um produto estupendo da
criatividade humana que Deus nos deu’ (102).
A par das possibilidades que se abrem com as tecnologias,
elas concedem poderes antes desconhecidos. O alcance de tais poderes muitas
vezes é imprevisível. Uma análise apurada demonstra a problemática deste
empoderamento tecnológico quando não orientado para o bem-estar do ser humano e
de todas as formas de vida e seu entorno. Os grandes problemas surgem quando se
exclui o ser humano e quando se pretende usar as novas tecnologias como único
meio para resolver problemas de magnitude global através de ações pontuas e desconectadas.
O Papa alerta: “Na realidade a tecnologia, que, ligada à finança, pretende ser
a única solução dos problemas, é incapaz de ver o mistério das múltiplas
relações que existem entre as coisas e, por isso, às vezes resolve
um problema criando outros” (20). A tecnologia exclusivamente a serviço de uma economia que não
tem o ser humano e todas as formas de vida como centro traz consequências
deploráveis, pois se torna como que uma máquina de gerar sempre mais excluídos
e descartados da sociedade. O grande poder reinante hoje, mediante o qual se
inclinam também as grandes potências mundiais, como países ou blocos, é a
economia empoderada e qualificada pelas vantagens das novas tecnologias no
intuito de lucros sempre maiores, mais fáceis e mais rápidos. Sobre esta
problemática, o Papa Francisco lembra: “A aliança entre economia e tecnologia acaba por
deixar de fora tudo o que não faz parte dos seus interesses imediatos” (54). Não se pode ignorar que aqueles que detêm o poder e o conhecimento, de acordo com o Papa,
exercem “um domínio impressionante sobre o conjunto do género humano e do mundo
inteiro” (104). A exploração da natureza e das populações mais vulneráveis é
ainda mais voraz com o uso inconsequente das tecnologias visando apenas lucros fáceis e
gigantescos, sem considerar as necessidades humanas e do planeta. A lógica da
dominação tecnocrata é hoje um dos maiores desafios. O domínio tecnocrático deteriora
e destrói a economia e política fazendo com que as instâncias de promoção da
pessoa e da sua rede social agora são questionáveis. O Papa Francisco diz neste
contexto: “O paradigma tecnocrático tende a exercer o seu domínio também sobre
a economia e a política” (109). A autorregulação do mercado como se espera em
países democráticos não acontece, pois é regulado por dinamismos adversos ao
bem-estar da pessoa, da sociedade e do planeta.
Uma das
questões cruciais quando se trata de analisar os desafios relativos ao meio
ambiente e as interconexões com as outras áreas é a posição do ser humano no todo
da criação e sua missão a partir do lugar que ocupa como ser pensante e capaz
do agir ético. O excesso de antropocentrismo leva o ser humano a concentrar-se
demasiadamente em si próprio e no poder que presume ter. E do exercício deste
poder nasce a lógica da dominação, do descartável tanto em relação ao ser
humano como todos os bens da natureza. Uma lógica que leva à escravidão e ao
abandono das periferias da vida. É esta
mesma lógica que está atrás do comércio e tráfico de animais (cf. 123).
Entre as
dimensões da vida humana imprescindíveis para uma ecologia integral é o
complexo mundo do trabalho como fator de dignificação e da promoção da pessoa.
No entanto, os atuais paradigmas no mundo da economia e, consequentemente na
política a ela submissa, o trabalho é regido muitas vezes por processos de
exploração, tirando-lhe a dimensão de ser um espaço de autorrealização e
criatividade humana. “Em qualquer abordagem de ecologia integral que não exclua
o ser humano, é indispensável incluir o valor do trabalho” (124). O trabalho
geralmente é relacionado com a sobrevivência, bem-estar e possibilidade de
enriquecimento. No entanto, na perspectiva cristã, não se pode esquecer da
incumbência dada por Deus de cuidar do jardim e o domínio que, na verdade, é
participação dos processos de vida no planeta.
Na realidade, a intervenção humana que favorece o
desenvolvimento prudente da criação é a forma mais adequada de cuidar dela,
porque implica colocar-se como instrumento de Deus para ajudar a fazer desabrochar
as potencialidades que Ele mesmo inseriu nas coisas: ‘O Senhor produziu da
terra os medicamentos; e o homem sensato não os desprezará’ ( Sir 38, 4) (124).
Um desafio a mais na relação com a casa comum
é o reconhecimento dos limites do progresso. Este aspecto levanta sempre mais
questionamentos sobre a responsabilidade ética na intervenção do ser humano na
natureza.
Contemplando o mundo, damo-nos conta de que este nível de
intervenção humana, muitas vezes ao serviço da finança e do consumismo, faz com
que esta terra onde vivemos se torne realmente menos rica e bela, cada vez mais
limitada e cinzenta, enquanto ao mesmo tempo o desenvolvimento da tecnologia e
das ofertas de consumo continua a avançar sem limites (34).
É uma questão
complexa, mas que deve ser encarada com responsabilidade. A exploração
econômica da natureza muitas vezes vem acompanhada de projetos pontuais e
desconexos como forma de justificar a intervenção inconsequente. Em todos os
lugares e na sociedade global não há políticas que preservem a natureza no seu
curso de autorregeneração. A posse sempre mais ampla de terras com auxílio das
mais avançadas tecnologias geram pobreza e exclusão de muitas pessoas antes
ocupados em pequenas propriedades, de cultivo ecologicamente equilibrado e, na
maioria das vezes, e intervém de forma negativa na biodiversidade – no conjunto
de ecossistemas, essenciais para a vida do planeta (cf. 134ss). Por isso, o
Papa conclama:
É preciso assegurar um debate científico e social que seja responsável e amplo,
capaz de considerar toda a informação disponível e chamar as coisas pelo seu
nome. Às vezes não se coloca sobre a mesa a informação completa,
mas é seleccionada de acordo com os próprios interesses, sejam eles políticos, económicos ou ideológicos. Isto
torna difícil elaborar
um juízo equilibrado e prudente sobre as várias questões, tendo presente todas as variáveis em jogo. É
necessário dispor de espaços de debate, onde todos aqueles que poderiam de algum modo ver-se, directa ou indirectamente, afectados (agricultores,
consumidores, autoridades, cientistas, produtores de sementes, populações vizinhas dos campos
tratados e outros) tenham possibilidade de expor as suas problemáticas ou ter acesso a uma informação ampla e fidedigna para adoptar
decisões tendentes ao bem comum presente e futuro (135).
3.2 Pistas de ação – educação socioambiental.
O grande
desafio da Igreja e da sociedade como um todo é tornar realidade as urgências
socioambientais, deduzidas a partir da atual situação socioambiental. É preciso
identificar caminhos concretos para que as mudanças necessárias aconteçam. Segundo
o Papa Francisco, “não haverá uma nova relação com a natureza, sem um ser
humano novo” (118). Por este motivo, não se pode separar o reconhecimento da
necessidade de mudanças com a formação consistente e permanente dos cristãos,
dos discípulos missionários ecoamigáveis. A análise precisa necessariamente
virar proposta. E a proposta precisa encontrar eco em pessoas e instâncias de
gestão dispostas a torna-la realidade. No ambiente particular, mas
especialmente em nível global onde os grandes desafios devem estar na ordem do
dia, a resposta aos apelos em prol da vida no planeta é fraca e insuficiente.
Preocupa a
fraqueza da reacção política internacional. A submissão da política à
tecnologia e à finança demonstra-se na falência das cimeiras mundiais sobre o
meio ambiente. Há demasiados interesses particulares e, com muita facilidade, o
interesse económico chega a prevalecer sobre o bem comum e manipular a
informação para não ver afectados os seus projectos (54).
Para o Papa é
importante que se encontrem caminhos concretos amplos, pois precisamos de
políticas internacionais e locais “que nos ajudem a sair da espiral de autodestruição
onde estamos a afundar” (163). A própria
encíclica pretende ser uma importante contribuição para que se chegue a uma
prática coerente e eficaz no cuidado do meio ambiente. “A Igreja não pretende
definir as questões científicas, nem substituir-se à política, mas convido a um
debate honesto e transparente para que as necessidades particulares ou as
ideologias não lesem o bem comum” (188). O diálogo e transparência são
fundamentais para que os projetos sejam efetivamente inofensivos ao meio
ambiente, ou mais ainda, sejam benéficos à medida que o impacto ambiental seja
de caráter positivo.
A previsão do impacto ambiental
dos empreendimentos e projectos requer processos políticos transparentes
e sujeitos a diálogo, enquanto a corrupção, que esconde o verdadeiro impacto
ambiental dum projecto em troca de favores, frequentemente leva a acordos
ambíguos que fogem ao dever de informar e a um debate profundo (182).
Após várias tentativas de acordos internacionais sobre
políticas e ações em prol do ambiente, cabe também uma chamada para a
responsabilidades das lideranças políticas. Um outro mundo somente é possível
se cada um faz sua parte, mas também se as autoridades adotarem novos critérios
e saibam se contrapor às pressões vindas de segmentos com interesses manifestos
adversos ao cuidado do bem comum.
Para um político,
assumir estas responsabilidades com os custos que implicam não corresponde à
lógica eficientista e imediatista actual da economia e da política, mas, se ele
tiver a coragem de o fazer, poderá novamente reconhecer a dignidade que Deus
lhe deu como pessoa e deixará, depois da sua passagem por esta história, um
testemunho de generosa responsabilidade. Importa dar um lugar preponderante a
uma política salutar, capaz de reformar as instituições, coordená-la e dotá-las
de bons procedimentos, que permitam superar pressões e inércias viciosas (181).
Além dos grandes programas globais cabe uma participação
efetiva da gestão local. Em nível local as responsabilidades se disseminam até
alcançar cada ser humano, cada cristão. “A acção política local pode orientar-se para a alteração do consumo, o desenvolvimento
duma economia de resíduos e reciclagem, a protecção de determinadas espécies e
a programação duma agricultura diversificada com a rotação de culturas” (180).
Uma reação à
altura dos atuais desafios socioambientais começa por uma educação sólida e
permanente que resulte numa mudança de estilo de vida. Este novo estilo requer
um grande processo educativo, pois, segundo o Papa francisco, “não haverá uma
nova relação com a natureza, sem um ser humano novo” (118). Não se trata de mudar aspectos parciais da
vida, mas de mudar um modo de estar no mundo. O “sistema normativo” (53)
sugerido pelo Papa Francisco é extremamente importante, pois é necessário que
se estabeleçam os limites necessários e ações proativas de proteção aos
ecossistemas. No entanto, uma mudança de paradigmas não se impõe só por
regulamentações. Por isso, a dedicação de amplo espaço da encíclica à educação.
Um novo modo de pensar e agir – uma cultura do cuidado – implica uma adesão da
pessoa como um todo. Trata-se de promover um novo comportamento que tenha na
sua base o conhecimento e reconhecimento de tudo o que implica cuidar de todas
as formas de vida e de todo o planeta, ou seja, sua fundamentação e seu
sentido.
Um novo modelo, um novo modo de estar no mundo, concorrem
com os constantes apelos de uma sociedade do consumo, do conforto e onde
prevalece o hedonismo. As necessidades criadas e sugeridas pelo sistema vigente
requerem uma sempre maior exploração do ambiente. Daí a importância de uma
educação fundamentada em valores consistentes e convincentes.
A educação será ineficaz e os seus esforços estéreis, se não
se preocupar também por difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida,
à sociedade e à relação com a natureza. Caso contrário, continuará a perdurar o
modelo consumista, transmitido pelos meios de comunicação social e através dos
mecanismos eficazes do mercado (215).
Requer-se,
portanto, uma autêntica conversão ecológica, pois a crise ecológica é também
uma crise cultural. O desafio de mudar hábitos e comportamentos implica num
processo contínuo e não em fragmentos pontuais. Por isso, envolve todas as
instâncias educacionais desde “a escola, a família, os meios de comunicação, a
catequese” (213).
O Papa
Francisco sugere ações cotidianas que em seu conjunto fazem a diferença e
transforma cada cristão, cada cidadão partícipe de um mundo novo possível.
A educação na
responsabilidade ambiental pode incentivar vários comportamentos que têm
incidência directa e importante no cuidado do meio ambiente, tais como evitar o
uso de plástico e papel, reduzir o consumo de água, diferenciar o lixo,
cozinhar apenas aquilo que razoavelmente se poderá comer, tratar com desvelo os
outros seres vivos, servir-se dos transportes públicos ou partilhar o mesmo
veículo com várias pessoas, plantar árvores, apagar as luzes desnecessárias…
Tudo isto faz parte duma criatividade generosa e dignificante, que põe a descoberto
o melhor do ser humano. Voltar – com base em motivações profundas – a utilizar
algo em vez de desperdiçar rapidamente pode ser um acto de amor que exprime a
nossa dignidade (211).
Uma mudança
de estilo de vida não se reduz ao controle do modo de consumo próprio, mas
inclui também o exercício da cidadania, ou seja, o empenho para “exercer uma
pressão salutar sobre quantos detêm o poder político, económico e social”
(206). O consumidor cria as demandas, por isso pode e deve promover, por esta
força que lhe é própria, “a mudança do comportamento das empresas, forçando-as
a reconsiderar o impacto ambiental e os modelos de produção” (206).
Considerações Finais
“Ele deu uma
ordem e tudo foi criado; Ele fixou tudo pelos séculos sem fim e estabeleceu
leis a que não se pode fugir! (Sl 148, 5b6)”.
O apelo maior
para os cristãos é reconhecer as demais criaturas com um fim próprio, com suas
peculiaridades e exigências próprias. Estas características que são próprias de
cada criatura é como que uma descrição
divina sobre o modo de cuidá-la. As criaturas louvam a Deus por sua
existência, portanto, cabe ao ser humano cuidar de cada uma com carinho
especial, sabendo-se incumbido por Deus para tal missão.
A
problemática das questões socioambientais não reside no uso destes para o
bem-estar do ser humano e sua sobrevivência, mas no abuso que se faz ao
desrespeitar suas leis internas, segundo as quais tem uma dinâmica de vida própria.
A velocidade da exploração dos bens da natureza é incompatível com o processo
de regeneração ambiental. Ela não é determinada pelo uso consequente e
responsável dos bens da natureza, mas pela exploração inescrupulosa para
atender as exigências de uma sociedade consumista, imediatista e egoísta.
A encíclica
aborda diversas dimensões da atual crise que, na percepção de São João Paulo
II, em sua Mensagem da Paz, de 1990, não é uma mera crise ecológica, mas um
reflexo da crise moral.
Referências
COMISSÃO Teológica Internacional. Comunhão e Serviço: A
pessoa humana criada à imagem de Deus, 2004. Disponível em:
<http://www.vatican.va/roman_curia/
congregations/cfaith/cti documents/rc_con _cfaith_
doc_20040723_communionstewardship_po.html> Acesso em: 25 ago. 2013.
ECK, Stefan
Bernhard. Auf dem Prufstand: Albert Schweitzer und die Ethik der Ehrfurcht vor
dem Leben, 2002. Disponível em:
<http://www.tierschutzpartei.de/pdf/Schweitzer_book.pdf. Acesso em: 10. nov.
2013.
JOÃO PAULO II, Paz com Deus – Paz com toda a criação, 1990.
Disponível em:
<http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/messages/peace/documents/hf_jp-ii_mes_19891208_xxiii-world-day-for-peace_po.htm>l.
Acessado em: 23 jul. 2012.
LYNN, White. The Historical Roots of Our Ecological Crisis.
Disponível em:
<http://www.uvm.edu/~gflomenh/ENV-NGO-PA395/articles/Lynn-White.pdf. Acesso
em: 20 out. 2012.
PAPA FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato Si, 2015.
Disponível em:
http://w2.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si_po.pdf.
Acesso em: 08 jul 2015.
PAULO VI. Mensagem enviada ao Secretário Geral da
Conferência Internacional das Nações Unidas sobre o Ambiente, realizada em
Estocolmo, em 1972. In: SEDOC 5
(1972-1973) col. 159-162.
SATTLER,
Dorothea. SCHNEIDER, Theodor. Doutrina da Criação. In: SCHNEIDER, Theodor
(Org). Manual de Dogmática.
Petrópolis: Vozes, 2002, Vol. 1.
[1]
Docente e pesquisadora na área de Teologia e Bioética, geni.maria@yahoo.com.br
[2] Título original: Das Ende der Vorsehung.
Die gnadenlosen Folgen des Christentums. [Tradução nossa]
[3]
O segundo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças
Climáticas), 1995, conclui que há influência humana no clima.
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