24 de fev. de 2012

1 de fev. de 2012

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2012

Que a saúde se difunda sobre a terra!
(cf. Eclo 38,8)


Geni Maria Hoss


O tempo da Quaresma chama para a conversão: “Converte-te ao Senhor, abandona os teus pecados!” (Eclo 17,21).  É tempo de abandonar tudo aquilo que nos afasta do caminho do Senhor. É tempo de olhar para o coração e identificar o que como pessoa chamada por Deus para uma missão pessoal neste mundo, preciso transformar em mim de forma a tornar-me discípulo missionário, capaz de me engajar de forma profética pelo Reino de Deus. É tempo de olhar para a comunhão de pessoas que professam a mesma fé no Ressuscitado, para identificar nas comunidades a urgentes necessidades de conversão de forma que elas se tornem significativas para todos.  É hora de olhar para toda sociedade, com suas diferenças, suas demandas e clamores por um mundo mais solidário e humanizado, para que cada pessoa e cada grupo, independente de suas condições e convicções possa, através da ação solidária dos discípulos missionários, fazer a experiência de um Deus de ternura, amor e misericórdia.
A proposta da Campanha da Fraternidade 2012, Fraternidade e Saúde Pública, nos desafia a refletir sobre a práxis como discípulos missionários naquela dimensão humana que Cristo constituiu como centro de sua ação, ou seja, a razão de ser de sua missão entre nós: “Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância!” (Jo 10,10). Vida, cuja plenitude nos é dada pela ressurreição nele, sendo o mundo da saúde importante dimensão desta missão.
Analisando o impacto da atual conjuntura sócio-política e econômica sobre o sistema de Saúde Pública, não se pode ignorar que se trata de “uma realidade que clama por ações transformadoras” e que “a conversão pede que as estruturas de morte sejam transformadas”  em espaços de promoção, prevenção e cuidados em saúde pessoal e coletiva. Realidade necessitada de contínua ressurreição da vida no cotidiano das pessoas, ressurreição daqueles que carecem de vida e saúde, saúde esta também limitada por um planeta adoecido pela destruição humana. Esta é a forma de, como Cristo, inclinar-se mediante a grandeza do outro, “Templo do Espírito Santo” (cf. I Cor 3,16) e criar as condições de tratamento e cura, como fez o Bom Samaritano (Lc 10, 30-35), que levou o homem caído e ferido à beira do caminho para uma hospedaria. Ele não se esquivou de abraçar a causa do irmão com tudo o que o cuidado do enfermo inclui.
Urge que os cristãos, os discípulos missionários, protagonizem um mundo mais humano, especialmente num campo tão delicado que necessita de cuidados  urgentes e qualificados. É preciso ser cristão que participa da construção de espaços e condições de vida, pois a "a participação é um dever a ser conscientemente exercitado por todos, de modo responsável e em vista do bem comum.”


A Saúde – uma questão de direito e também dever do cidadão.

     A saúde é um tema sempre em pauta em organizações públicas, sociais e eclesiais. Importante passo em prol da saúde no Brasil foi dado quando garantida de forma universal, equitativa e integral na legislação brasileira. Constituição Brasileira de 1988, seção II, Saúde, art. 196:

A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido me¬diante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

Saúde, no entanto, não se garante apenas por leis e decretos. São necessários desdobramentos e ações efetivas que façam cumprir a lei. Trata-se de um processo de longo prazo e de contínuas adequações e readequações sempre orientadas pela lei maior, ou seja, na saúde como “direito de todos”
O Sistema Único de Saúde (SUS) é a estrutura necessária desenvolvida para concretizar o direito universal de acesso à Saúde Pública.
A abrangência do SUS, no entanto, é bem mais ampla daquela que se percebe imediatamente quando se busca atendimento em alguma instituição de saúde: unidade básica de saúde, hospital, centro de especialidades.
O SUS inclui cuidados em diversas instâncias e dimensões, todas elas afins de saúde quer seja no nível de promoção, prevenção ou tratamento.  O SUS deve atuar em diversas frentes, especialmente em relação àqueles fatores que incidem sobre a saúde humana.

O processo saúde-enfermidade de uma coletividade é resultante de diversos fatores sociais, políticos, econômicos, ambientais e biológicos. Destacam-se entre os deter¬minantes sociais: a urbanização; e a industrialização crescente, bem como as condições de moradia, de saneamento básico, de nutrição e de alimentação, de escolarização, de recreação e lazer, de acesso aos serviços de saúde de trabalho, de emprego e de renda.

Em 2011 a Campanha da Fraternidade tratou de um tema afim de saúde: O Meio Ambiente. Não se pode desprezar a incidência das condições do entorno, do habitat sobre a saúde. Isto explica que no campo da saúde haja também ações de melhorias ambientais.

A humanidade de hoje, se conseguir conjugar as novas capacidades científicas com uma forte dimensão ética, será certamente capaz de promover o ambiente como casa e como recurso, em favor do homem e de todos os homens; será capaz de eliminar os fatores de poluição, de assegurar condições de higiene e de saúde adequadas, tanto para pequenos grupos como para vastos aglomerados humanos.

 Portanto, engajar-se pela melhoria da saúde inclui, entre outros, o meio ambiente, a vigilância sanitária, saneamento básico...
O sistema de Saúde Pública é um emaranhado complexo para o qual é preciso um orçamento adequado, gestão qualificada e superação de muitos entraves. Entre eles, a prestação de serviços desconectados entre as diversas instâncias responsáveis, especialmente quando se trata do atendimento clínico, exigindo que os usuários tenham de fazer verdadeiras “peregrinações” para conseguir atendimento – isto quando conseguem em tempo hábil.
Ao tomarmos, também aqui, a parábola do Bom Samaritano como modelo de cuidado no campo da Saúde, cabe salientar a hospedaria (com a mesma raiz de hospital - lugar de acolhida e cuidado), que aqui significa o lugar de cuidados do enfermo, hospedaria onde as condições próprias para os cuidados em saúde permitem que os enfermos possam ter esperança e conforto. O Samaritano não levou o ferido para sua casa ou para algum templo, levou-o para a hospedaria por ser um lugar próprio, adequado, com as condições de cuidado garantidas. O Sistema Público de Saúde, segundo suas atribuições próprias, constitui e garante, de forma universal, este espaço de cuidado? A questão é: Como está a hospedaria? De quem é a responsabilidade de cuidar da hospedaria? Na prática, todos têm acesso à hospedaria?
E para os cristãos, que compromissos advêm do direito universal à saúde? Ou teria apenas direitos? Seria irresponsabilidade ou até mesmo fuga da missão por parte dos cristãos entender que a hospedaria, ou na atual realidade, o Sistema Público de Saúde seja de única responsabilidade do Estado. É preciso refletir sempre na responsabilidade conjunta, conforme prevêem as leis que regem o sistema de saúde como um todo.
É, sim, responsabilidade de toda a sociedade, portanto, também dos discípulos missionários, dentro da função do controle social, assumir o compromisso de cuidar da hospedaria. Sociedade e Estado, cada qual segundo suas atribuições protagonizam um sistema eficiente (ou decadente) de saúde.
Ao Estado cabe garantir o acesso universal ao sistema de saúde para cada cidadão, mas cabe ao cidadão usar o sistema de acordo com sua organização própria. Ou seja, conhecer o sistema, saber como e onde recorrer em caso de emergência ou de atendimento seletivo, saber orientar seus irmãos – cristãos ou não – a fazer uso do seu direito de acesso à Saúde Pública. 
Cabe ao Estado informar e esclarecer questões de saúde pública coletiva – promover a educação popular em todas as dimensões da saúde - especialmente quando se trata riscos de epidemias, contágios.... e cabe ao cidadão engajar-se efetivamente em programas e políticas de saúde, assumir a responsabilidade pelos cuidados necessários, especialmente quando comportamentos pessoais incidem sobre a coletividade.  Aqui pode se avaliar questões como a dengue. Em muitos casos, somente a intervenção do Estado, com pesadas multas consegue garantir ações simples que, se não eliminam, ao menos diminuem os riscos da disseminação da doença. 
Cabe ao Estado criar espaços de debate sobre a saúde, próximo do cidadão, mas cabe ao cidadão efetiva participação e comprometimento... Não seriam as cadeiras vazias dos Conselhos de Saúde, as cadeiras dos cidadãos discípulos missionários? Como cristãos, sabemos orientar nossos irmãos e ajudá-los a chegar à hospedaria de acordo com a organização do sistema? Sabe como e onde reivindicar o direito à saúde quando estes não são respeitados?


Palavra de Deus e Saúde

Ao criar o ser humano como sua imagem e semelhança, pessoa e comunhão, Deus incumbiu-lhe com uma missão especial: Cuidar e cultivar a vida na terra! “Escolhe, pois a vida!” (Dt 30,19). Uma missão que requer uma opção continua, no exercício da liberdade, dádiva de Deus a cada ser humano. Escolher a vida implica em viver segundo os desígnios de Deus, em relações interpessoais, relações com as outras criaturas de Deus, que sejam harmoniosas, construtivas, geradoras de vida. “A pessoa humana alcança sua plena realização quando vive sua amizade com o Deus da vida”.  Estar de bem com todos significa estar bem. Isto também é fator de produção de saúde tanto pessoal como coletiva.
Especial cuidado, no entanto, é preciso ter para não olhar a saúde-doença exclusiva e diretamente de acordo com o binômio bênção e maldição, como aparece nos primeiros livros da Bíblia, pois isto levaria os cristãos a julgar e condenar em vez de cuidar e curar. Jesus, que veio redimir e reconciliar todas as coisas, ajudou a superar esta interpretação quando, interrogado pelos seus discípulos, os fez reconhecer que a cegueira não era conseqüência de um pecado cometido pelos antepassados. E ele curou o cego e fez a glória de Deus manifestar-se nele!

Caminhando, viu Jesus um cego de nascença. Os seus discípulos indagaram dele: Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: Nem este pecou nem seus pais, mas é necessário que nele se manifestem as obras de Deus. (Jo 9, 1-3)   

A Saúde é gerada nas constantes interconexões do bem-estar psíquico, social, espiritual e físico.  E necessário considerar este sistema complexa da vida humana para promover / restabelecer a saúde..
 O livro do Eclesiástico, 38, tomado para as reflexões da Campanha da Fraternidade 2012, reconhece e enaltece a missão dos profissionais da saúde e a necessidade que deles temos para recuperar a saúde.

Se antes, recorrer à medicina e a seus profissionais era visto como falta de fé no Deus Altíssimo, o Eclesiástico considera os remédios, os médicos, e a ciência como possibilidades de cura que vêm do próprio Deus e, consequentemente, devem ser buscados quando necessário.”

O cuidado do novo testamento se pauta classicamente na passagem do Bom Samaritano:
Jesus então contou: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o meio morto. .Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote, viu-o e passou adiante..Igualmente um levita, chegando àquele lugar, viu-o e passou também adiante..Mas um samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão.Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; colocou-o sobre a sua própria montaria e levou-o a uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo-lhe: Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei. (Lc 10, 30-35)

Cuidar é ver além de si mesmo, é interromper o caminho dos desejos próprios, é estender a mão, é ter compaixão, é renunciar os próprios bens e investi-lo no cuidado do outro, é conduzir para o lugar adequado onde estão criadas as condições de cuidado. O que o cuidado não é: ter pena, sentir-se mais forte em relação ao outro, querer ensinar sem aprender...


  O grande objetivo da Campanha da Fraternidade 2012.

Quando se fala em sistema público de saúde, o SUS, imediatamente nos vêm à memória, a doença, o posto (unidade) de saúde, o hospital... No entanto, SUS é um sistema muito complexo, que compreende ações em áreas afins, nem sempre relacionados a estas estruturas tradicionais. Veja-se o cuidado com a água potável, os ambientes de trabalho, as condições do meio ambiente (incidência de desequilíbrios ambientais sobre a saúde), etc... São diversos aspectos interdependentes que constituem o sistema saúde-doença.
A Campanha da Fraternidade 2012 se propõe a “refletir a realidade da saúde no Brasil em vista de uma vida saudável, suscitando o espírito fraterno e comunitário das pessoas na atenção aos enfermos e mobilizar por melhoria no sistema da saúde.”
Embora a Campanha da Fraternidade não seja uma Campanha de responsabilidade exclusiva da Pastoral da Saúde, é esta que mais tem presente os desafios que se colocam no cotidiano desta Pastoral bem como de afins tal qual a Pastoral da Sobriedade, Pastoral da AIDS, entre outras, de acordo com a organização de cada diocese/paróquia.
Por isso, é importante salientar neste grande objetivo o alinhamento com os grandes objetivos da Pastoral da Saúde.
O espírito fraterno é o que move os discípulos e missionários a se engajarem de forma efetiva na dimensão solidária da saúde, ou seja, “ser presença de Jesus, Bom Samaritano, ao lado dos doentes e dos que sofrem no ambiente familiar, nas comunidades e nas instituições de saúde.”  A palavra amiga, o sorriso, o aperto de mão são insubstituíveis e importantes componentes do amor fraterno do cristão e da produção de saúde. São ações que humanizam o atendimento. A visitação dos agentes de pastoral da saúde, além deste cuidado, é a oportunidade que se tem para identificar as necessidades neste campo e a dar uma resposta à luz dos valores do Evangelho.
O espírito comunitário inclui tanto abraçar a causa do sofrimento alheio como missão da comunidade, bem como a preocupação com a promoção e prevenção em saúde no âmbito da comunidade.  Alinha-se com a dimensão comunitária do cuidado da comunidade com a saúde dos seus. Os discípulos missionários devem, por isso, empenhar-se para “favorecer a promoção e a educação em saúde, com ênfase na saúde pública e no saneamento básico, agindo de maneira preferencial no campo da prevenção das enfermidades e da promoção de estilos de vida saudáveis.”  Promover e prevenir constitui uma relação responsável diante da vida, segundo os desígnios de Deus. “Não matar!” significa também não causar danos à saúde. Não matar! Imperativo que deve ser vivido de forma positiva: Ou seja, é preciso cuidar do corpo através de hábitos que favoreçam uma vida saudável.
Ser discípulo missionário no campo da saúde implica uma práxis profética nas difíceis realidades da sociedade no que tange à qualidade de vida da pessoa.     Mobilizar por melhoria no sistema público de saúde constitui um dos maiores desafios da atualidade em nosso país. Não se questiona a concepção e estruturação da Saúde Pública, mas especialmente sua concretização, na aplicação de seus princípios, que afirmam e se propõe a aplicação também da lei maior. 
Como Jesus, também os discípulos missionários precisam aproximar-se da realidade do sofrimento alheio. As curas, os cuidados não acontecem como um passo de mágica nos templos, mas lá onde o povo, o enfermo se encontra. Reconhecendo a ciência médica como uma dádiva divina, é ali nos espaços próprios onde o discípulo missionário cumpre sua missão. 


Mais propostas da Campanha da Fraternidade:

    Conscientizar toda a sociedade da difícil situação da saúde e motivar para uma efetiva melhoria do sistema;

    Conhecer as condições deficitárias da saúde é o primeiro passo para se vislumbrar melhorias uma vez que este conhecimento permite que sejam traçadas as melhores estratégias, perseguir objetivos ininterruptamente, e tudo isto, quando feito de forma coletiva, ganha força. Não se pode ficar acomodado na solução de problemas pontuais. Não convém ao cidadão, também ao cristão, discípulo missionário,  acomodar-se com soluções via favores e jeitinhos dos mais próximos e esquivar-se de uma ação global de todo o sistema que o transforme em atendimento universal com qualidade. É necessário um empenho para que todos, em qualquer tempo e lugar, tenham acesso ao sistema de saúde. E esta responsabilidade é compartilhada entre Estado e a sociedade, como está previsto na instituição e cabe a um Estado democrático e, no âmbito eclesial, como parte da implantação do Reino aqui e agora.

    Criar, ampliar e aprofundar a Pastoral da Saúde como instância permanente de debate e práxis em prol da saúde da comunidade.

Recentemente ouvi alguém falar, quando interpelado sobre a criação da Pastoral da Saúde em sua paróquia: “Nem consigo implantar as pastorais principais como posso implantar mais a pastoral da saúde?” Sinceramente, este questionamento me fez refletir muito: O que é principal no Reino de Deus? Existe algo mais importante numa Igreja cristã a não ser seguir Cristo? Cristo não curou, não se inclinou diante dos doentes, os fortaleceu, pediu que se levantassem, tomassem seu leito, ou seja, tomassem a iniciativa de seguir seu caminho, fortalecidos pela graça divina?  “Jesus percorria toda a Galieia, ensinando nas sinagogas deles, anunciando a Boa Nova do Reino e curando toda espécie de doença e enfermidade do povo” (cf. Mt 4,23). A cura de Jesus tem uma dimensão maior, ele não cura somente a doença, mas a pessoa do enfermo:  “Com sua ação evangelizadora, Jesus não apenas cura os doentes, mas resgata o ser humano para o meio da sociedade, dando-lhe dignidade e apresenta uma nova forma de relacionar-se com as pessoas necessitadas.”
É hora de criar ou ampliar a Pastoral da Saúde na paróquia que, de um lado, pautem sua práxis no Evangelho e, de outro, tenham coragem de evangelizar o mundo da saúde pela sua participação efetiva como cidadãos nas diferentes esferas de produção da saúde.

    Preparar a comunidade para o exercício da cidadania especialmente para acompanhar a gestão e aplicação dos recursos em saúde, a superação da corrupção, entre outros.

A comunidade cristã é formada de cidadãos cristãos, portanto, igualmente responsáveis pela saúde pública. Não é exatamente uma tarefa fácil, numa sociedade onde a corrupção é uma das piores doenças, engajar-se com postura ética e, como partícipe da sociedade a quem cabe o controle social do sistema de saúde, para que os recursos previstos na legislação sejam efetivamente aplicados na produção de saúde. 

Fazer o bem, dentre as ações a serem desenvolvidas pela Pasto¬235. ral da Saúde, inclui também fomentar a participação da comu¬nidade no controle social das políticas públicas. Esta ação sig¬nifica a cooperação estreita da sociedade civil e organizada na condução das políticas públicas, pelas vias já asseguradas pela Constituição, nos Conselhos de Saúde ou nas Conferências de Saúde.

Os cristãos não podem separar o Evangelho da vida concreta da pessoa. isto implica trazer para as preocupações da comunidade eclesial, aquelas situações e condições que preocupam e afligem todos os seres humanos. Como Concílio Vaticano II, não é mais somente a comunidade cristã, a destinatária dos cuidados da Igreja, mas toda a humanidade.


Considerações

Às vezes pensamos que a pobreza é apenas fome, nudez e desabrigo. A pobreza de não ser desejado, não ser amado e não ser cuidado é a maior pobreza. É preciso começar em nossos lares o remédio para esse tipo de pobreza. (Madre Teresa de Calcutá)

É tempo de superar a pobreza da carência de cuidado. Num país cristão como o Brasil urge que surjam samaritanos de grande visão que, na humildade e simplicidade de suas ações cotidianas, contribuam para um atendimento no campo da saúde humanizado, ético e pautado nos valores do Evangelho.
O cuidado universal, equitativo e integral é o cuidado que Jesus dispensou aos seus, quando lhe eram apresentados enfermos. Para Jesus, o enfermo não era um pobre coitado. No final, apelava sempre para a força interior do próprio enfermo: “Levanta-te!” Jesus, que vê o interior, sabe que o cuidado faz promover e crescer o interlocutor. Levanta-te! É isto que se deve fazer também hoje: ajudar que os enfermos possam “vir para o meio” da vida eclesial e se tornem agentes de sua própria cura, tratamento, cuidado. Facilmente visitamos os enfermos, mas que condições oferecemos que eles possam sair de suas casas e participar, dentro de sua condição, da vida da comunidade?
De que forma somos discípulos missionários no âmbito da Saúde Pública? Como nos envolvemos nestas questões? Os enfermos de nossa comunidade, também como usuários, são motivados ao engajamento pelo acesso universal a saúde, conhecem seus direitos e deveres? E os outros membros estão cientes da missão como cidadãos cristãos?
A missão que é confiada à comunidade eclesial no âmbito da saúde a identifica com o serviço de Jesus à humanidade e faz cada cristão a ser portador da vida e vida em abundância (cf. Jo 10, 10).


Referências

CELAM, Guia para a Pastoral da Saúde na América Latina e no Caribe, São Paulo: Centro Universitário Camiliano, 2010,s

CNBB. Texto-base Campanha da Fraternidade 2012. Brasília: EdiçõesCNBB, 2011.

JOÂO PAULO II, Doutrina Social da Igreja Católica, 2004.

João Paulo II, Discurso aos participantes num Congresso sobre “Ambiente e Saúde ”(24 de Março de 1997), 5: L’Osservatore Romano, ed. em Português, 5 de Abril de 1997.

MESTERS, Carlos. Os profetas e a saúde na Bíblia. São Leopoldo: CEBI, 1985.

23 de dez. de 2011

HANS JONAS E O PRINCÍPIO ÉTICO DA RESPONSABILIDADE AMBIENTAL EM TEMPOS DE CRISE ECOLÓGICA



Hans Jonas e o Princípio Ético da Responsabilidade Ambiental
em Tempos de Crise Ecológica
Geni Maria Hoss


Introdução


 Considerando-se o desenvolvimento gerado a partir dos avanços tecnológicos urge fazer uma reflexão apurada sobre as implicações éticas sobre a biosfera em todo este processo. Entre os importantes pensadores do último século que se ocuparam com a questão se encontra Hans Jonas (1903-1993), tendo como mestres, entre outros, Husserl e Heidegger
Antes, porém, vale lembrar Fritz Jahr que já em 1927 aponta para um importante princípio ao desenvolver o tema das relações éticas dos seres humanos com os animais e plantas: "Respeita cada ser vivo em princípio como uma finalidade em si e trata-o como tal na medida do possível" (JAHR, 1927).
Não basta, no entanto, discurso isolado e desconexo aqui e acolá. Grandes nomes surgiram no século XX, que desenvolveram o tema sob diversos aspectos e de uma forma mais ampla e consistente, tentando apresentar formas eficientes que pudessem servir de argumento no grande cenário mundial. Surgem nomes como Albert Schweitzer, (1875-1965), ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1952, que chama a atenção, entre outros, para a realidade da indissolubilidade do ser humano com seu ambiente e centraliza suas reflexões no tema do respeito pela vida: Respeito diante de todas as formas de vida. O antropocentrismo unilateral, ou como apresenta Hans Jonas, o "estreitamento antropocêntrico" é sem dúvida um importante empecilho no desenvolvimento de relações éticas com todos os elementos da biosfera.
As novas dimensões da responsabilidade que Hans Jonas apresenta consideram as mudanças em todos os âmbitos geradas pelos avanços científicos e que conferem super-poderes ao ser humano, sem, contudo, ele ter poder muitas vezes pelas conseqüências do exercício de seu poder.. O ser humano não está isolado dos outros seres vivos, é antes um deles e comunga com eles interdependência que permite sua subsistência ou o condena à extinção. Hans Jonas não questiona apenas o poder de interferência e possível mudança do ser em si, mas também a aceleração dos processos de tal forma que o metabolismo – [Stoffaustausch] é afetado em seu decurso normal, não podendo se regenerar e recriar num processo, cujo ritmo é regulado pelo próprio ciclo da Natureza.
 O ser humano não é "soberano e proprietário da Natureza", conforme afirma o matemático e filósofo René Descartes (1596-1650), no início do Iluminismo, mas lhe cabe a responsabilidade pela Natureza integral, isto é, o equilíbrio de toda a biosfera depende do ser humano. O saber do alcance do poder fazer e as suposições das conseqüências, que este mesmo saber permite, confere ao ser humano um importante papel no processo de preservação ecológica, isto é, da preservação de sua própria casa e a de todos os seres vivos. "É prerrogativa da liberdade humana de dizer não ao mundo" (JONAS, H. p. 148). O mundo – a biosfera – é dotado de valores inerentes à sua finalidade, mas é dado ao ser humano a liberdade de respeitar estes valores e até mesmo renegá-los. Por isso, a importância de se refletir sobre a responsabilidade dos seres humanos pelo e no planeta. Segundo Jonas, o ser humano, por sua superioridade do pensamento está destruindo o "equilíbrio simbiótico". Desta forma, ele está sendo uma ameaça para si próprio.
Ele – Hans Jonas - como representante da argumentação ética do "Basic-Needs-Argument", parte das necessidades básicas como alimento, teto, saúde, enfim condições naturais, as quais estão ameaçadas pelo estilo de viver e ser da humanidade na era industrial, reflete e faz refletir sobre as possibilidades, mesmo que incertas, geradas pela tecnologia.
Viver o presente em função do futuro, do devir, e trazer o futuro para o presente é importante elemento da ética apresentada por Hans Jonas. Daí a ética não somente se ocupar e questionar sobre o ser existente, mas também com o ainda não-existente, e o não-existente na relação do hoje existente, pois não há uma responsabilidade futura em relação ao não existente hoje. Nesta perspectiva não há, por isso, uma relação de reciprocidade direito-dever, próprios da convivência na mesma biosfera uma vez que o não-existente nada fez para o existente aqui e agora. Mas terá ele direito de ser um dia? Quem lhe deve garantir este direito?
            Uma ética do Meio Ambiente – da biosfera – se apresenta na pós-modernidade como única chance de sobrevivência de todos seres vivos.

Hans Jonas e o Princípio Ético da Responsabilidade Ambiental em Tempos de Crise Ecológica.

 Uma análise da atualidade em vista de suas tendências de globalização e a destruição da Natureza, aponta para um uma urgente mudança de paradigma. Segundo Hans Jonas, uma nova consciência é um pressuposto necessário para evitar uma catástrofe ecológica. A dialética do Iluminismo chegou a ponto de confluir para uma catástrofe. Neste contexto, Hans Jonas reflete sobre um novo princípio, o Princípio Responsabilidade, que vai além das relações recíprocas de sujeitos, sabe-se também responsável pela Natureza. A ética precisa reagir aos desafios da Ecologia e a uma visão alterada do mundo através dos avanços tecnológicos. Se de um lado o mundo está em perigo por causa da bomba atômica, a medicina moderna é beneficiada ao mesmo tempo constantemente desafiada a responder questionamentos éticos relativos às possibilidades criadas nos últimos anos. A argumentação filosófica de Hans Jonas parte da necessidade e imperativo da hora. É próprio do ser humano sentir-se responsável por aquilo que coloca sua vida em jogo. Por isso, é preciso refletir sobre os desafios da atualidade antes que aconteça a catástrofe, uma possibilidade iminente. A posição do pensar filosófico de Hans Jonas está na pré-reflexão. A teoria da responsabilidade começa no Eu e no seu dever moral. Porém, trata-se, sobretudo, de uma ética na perspectiva do coletivo e do futuro. Somente quem tem o "projeto futuro" enraizado em convicções morais, pode dizer que cumpre a máxima da responsabilidade em relação ao ser e ao vir a ser. O pressuposto para uma relação de responsabilidade é a constante crítica da razão. O indivíduo racional, segundo Hans Jonas, está diante do dilema: Ou ele usa a inteligência para o avanço ilimitado à custa de catástrofes ecológicas, ou ele controla e orienta as possibilidades de desenvolvimento. Isto não significa que deve parar de pesquisar, mas que deve incluir ponderações sobre as possíveis conseqüências de sua pesquisa em macro e micro dimensões. Hans Jonas propõe como centro da reflexão ética o perigo previsível, um olhar para o possível impacto planetário, conseqüências para toda a humanidade, entre outros cenários, que podem orientar os princípios éticos e novos deveres no novo poder. A isto ele denomina de “heurística do temor”. Urge estabelecer princípios éticos amplos e consistentes para garantir existência de vida futura no planeta. O que deve ser priorizado e preservado no ser humano em vista dos perigos e ameaças a fim de se chegar a um querer ético de respeito diante de todas as formas de vida que compõe a biosfera? A Natureza dá sinais de alerta e Hans Jonas espera que estes sejam o suficiente para que haja uma reação positiva no sentido de salvar o planeta. O temor se sobrepõe à razão e obriga a respostas rápidas e eficientes. Esta percepção de Hans Jonas nasceu da constatação dos vultuosos problemas ecológicos e da desproporcional consciência ecológica da humanidade a tal ponto de ela própria estar no rumo da extinção. "Nós sabemos apenas o que está em jogo, se sabemos que está em jogo", (Jonas, p. 8).
Jonas amplia sua ética também no sentido vertical, isto é, o cosmo universal e o transcendente é o horizonte de alcance da ética, considerando-se as conseqüências das ações dos seres humanos. Ele não se preocupa com a teoria da perfeição, da felicidade, da dignidade moral, mas com a possibilidade da existência em si em função do perigo que o mundo / cosmos corre. Segundo ele, é preciso preocupar-se em primeiro lugar com a sustentabilidade do mundo no futuro. Vale salvar o mundo antes de salvar os indivíduos. A ética antropocêntrica dá lugar a um paradigma ético supra-individual. Este dá conta de um salto necessário para o ser-com-o-mundo, onde se estabelece uma verdadeira relação de valor igualitário "Mitwelt", isto é, o respeito e encantos recíprocos não se estabelecem numa relação díspar centrada em algum elemento da Natureza, no caso do antropocentrismo, o ser humano.
Jonas parte da responsabilidade de pessoa a pessoa, porém, estendida à biosfera numa visão integral, contemplando a Totalidade, Continuidade e Futuro. Ele ressalta a auto-organização da Natureza. Esta se organiza por si mesma e tem sua própria finalidade. Por isso, o ser humano não a pode subjugar e nem explorá-la de forma indiscriminada. Assim a Natureza requer um paradigma de um agir responsável, isto é, de uma ética do dever.
O Imperativo Categórico de Hans Jonas está fundado no dever do agir sensato. É a ética da responsabilidade que deve servir de critério do agir humano. Como Kant (1724-1804), para Hans Jonas um preceito moral, conforme formulado no Imperativo Categórico, deve ter validade universal. Para Jonas, é preciso ampliar o formalismo da ética de Kant para uma ética do sentimento, da intuição, incluindo o respeito pela vida. No lugar de uma ética formal, Jonas apresenta uma ética de valores e sentimentos. A dimensão de uma responsabilidade pelo futuro, isto é, de uma perspectiva de tempo deve ter seu devido espaço no princípio categórico. Enquanto Kant prevê a contemporaneidade como horizonte da ética, numa relação de sujeitos, como viventes de um tempo e espaço próximos, Hans Jonas prevê as conseqüências, mesmo incertas, das ações de hoje para as futuras gerações.
O Princípio Responsabilidade em Hans Jonas não se debruça sobre um determinado aspecto, mas sempre suscita uma reflexão que contemple o todo: "Age de modo que os efeitos de tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana sobre a terra". "O Imperativo Categórico propõe simplesmente que existam seres humanos, acentuando ao mesmo tempo o que e o o que do dever existir." (Jonas, p.92). Trata-se de uma idéia do ser e não do agir. Na ética prática, não se trata de uma reflexão metafísica sobre o existir e não-existir, mas a partir da constatação que existem, é necessário uma ética que questione a qualidade do existir. O primeiro princípio de uma "ética do futuro" não reside em primeiro lugar na ética do agir e, sim na Metafísica como ensino do ser. Que existam seres humanos implica numa ética pelo meio em que ele pode existir e da convivência neste seu habitat. Pode o não-ser ser preferido ao ser? Aqui cabe a questão colocada por Leibniz: Por que alguma coisa é e não é nada? O ser-no-mundo é independente de qualquer tese de sua própria origem.
De acordo com Hans Jonas, o Princípio Responsabilidade exige sabedoria, conhecimento e humildade. O conforto gerado pela tecnologia moderna, numa perspectiva hedonista, reduz a capacidade natural do ser humano para uma opção saudável entre os desejos da vida cotidiana e os fins últimos, o que dele exige sabedoria e determinação. A incorporação de novas necessidades em nossa vida concreta requer uma avaliação ética e conseqüente decisão para o bem presente e futuro.
Ciente da impossibilidade de previsão certa, é preciso reconhecer a ignorância e agir em vista de especulações, embora estas não ofereçam certezas. Uma possível irreversibilidade das conseqüências deve motivar o ser humano a buscar conhecimento científico para uma "ética informada", mas ao mesmo tempo atentar para um paradigma que integre a vigilância dos seus "super-poderes" para agir com responsabilidade.
Os novos poderes conferidos à ação humana pelo avanço científico-tecnológico resultam em impacto em nível coletivo e não apenas individual, global e não apenas local, portanto com magnitude incomparável, sob forma de política pública. A política, por sua vez, no que concerne às suas responsabilidades se vê mudada pelas quase ilimitadas possibilidades da ação humana.
Estão os Governos preparados para corresponder aos novos desafios e exigências? Que princípios e interesses regem as atuais decisões políticas referentes à proteção do Meio Ambiente?
            O novo imperativo de Hans Jonas se dirige à política pública tendo em vista um prazo longínquo. Não desconsiderando as ações imediatas, concentra-se nos efeitos últimos da continuidade da atividade humana, no futuro. A universalização não é hipotética, mas antes remetida ao todo coletivo, atendendo à medida real da sua concretização.
            Governantes e legisladores são os protagonistas de um mundo sustentável. O melhor Estado é também aquele que promove e zela pelo futuro através de políticas públicas de proteção ao Meio Ambiente, que sejam consistentes, abrangentes e duradouras.

É possível fundamentar uma dimensão futura na aspiração comum na perspectiva de um ethos mundial, assim é permitido às futuras gerações usufruir o mesmo encanto pela Natureza e ter garantida a sobrevivência, como é dado às atuais gerações.
            Para entender o pensamento de Hans Jonas e preciso percorrer o itinerário de suas reflexões por ele próprio apresentadas e, além disso, analisar a leitura que faz de Kant, identificando elementos semelhantes e distintos na elaboração do seu Imperativo Categórico, salientando-se em Hans Jonas a responsabilidade no âmbito político e o horizonte voltado ao futuro.
Problemas ecológicos sempre foram conhecidos, porém, não se tinha noção da dimensão dos reais danos que estes trariam para o ser humano, pois se fazia uma leitura mais ou menos pontual, sem considerar grande impacto sobre o Meio Ambiente e suas inter-relações com toda biosfera. Com a revolução industrial, os problemas relativos ao Meio Ambiente se intensificaram e somente então se passou a trazer estas questões para o âmbito de reflexões filosóficas como caminho para desenvolver relações éticas do ser humano com seu Habitat.
Entre inúmeros fatores a serem considerados, mencionamos aqui três dos que estão na pauta do dia das principais conferências sobre o Meio Ambiente:
  1. Tanto recursos renováveis como não-renováveis são usados em sempre maior escala;
  2. O ecossitema é onerado com emissões e poluentes;
  3. O espaço humano, constituído a partir de emigrações em função das indústrias, avança sempre mais. Nesta dinâmica o ser humano interfere em processos de amplitude global.

Estas preocupações, de uma ou outra forma, já estão na pauta de eventos e conferências, tendo em vista a necessidade de tomar uma atitude diante do panorama ecológico atual. Em 1972, o Club of Rome, chamou atenção, de forma dramática, sobre os problemas ecológicos da Europa, gerados pela industrialização do Norte. A ECO-92, Rio-92, Cúpula da Terra, é uma das Conferências das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD), realizada no Rio de Janeiro. Teve como objetivo principal buscar meios de conciliar o desenvolvimento sócio-econômico com a conservação e proteção dos ecossistemas da Terra.
Em abril de 2007, IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), divulgou a segunda parte do relatório sobre as mudanças climáticas na Terra. O estudo apresenta dados que responsabilizam ainda mais o ser humano pelas alterações do Meio Ambiente: 90% das alterações no Meio Ambiente são antropogênicas, ou seja, causadas pelo próprio homem.

Em todos estes ambientes a constatação é a mesma: É preciso, numa visão planetária, refletir sobre a responsabilidade do ser humano em relação à casa comum e desenvolver uma visão da Terra como a Pátria-Mãe, a Gaia, que permite a ele e todo o ser existir, viver e sobreviver com qualidade, se este tiver um sentido de responsabilidade para hoje e também em relação às gerações futuras. Enfim, é necessário uma reflexão sobre a responsabilidade ética do ser humano na sua relação com a biosfera.

Considerando todas as outras espécies dessa Terra, é essencial compreender que a comunidade humana desempenha, sem sombra de dúvida, um papel crucial tanto para a nossa própria sobrevivência quanto para a sobrevivência e integridade da comunidade terrestre como um todo. (O'Sullivan, 1999, p.49)


É importante refletir sobre a ética do agir não somente individual, mas, sobretudo, coletivo, onde a dinâmica tanto cumulativa como inter-relacional do desenvolvimento tecnológico motive para uma responsabilidade perante as conseqüências desta numa dimensão planetária.


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HANS JONAS AND THE ETHICAL PRINCIPLE OF ENVIRONMENTAL - RESPONSIBILITY IN TIMES OF ECOLOGICAL CRISIS



Hans Jonas AND THE ETHICAL PRINCIPLE OF ENVIRONMENTAL 
- RESPONSIBILITY IN TIMES OF ECOLOGICAL CRISIS
Geni Maria Hoss



Introduction


 Considering the development generated by technological advances, we are urged to reflect thoroughly about the ethical implications of the biosphere in the whole process. Among other important thinkers of the last century who were concerned about this issue is Hans Jonas (1903-1993), having as mentors, Husserl and Heidegger, among others.
Before, however, we must remember that Fritz Jahr who in 1927 had pointed out the essential principle of developing the theme of ethical relations of human beings with animals and plants: "Respect every living being on principle as a goal in itself and treat it, if possible, as such" (JAHR, 1927).
However, it is no good having an isolated and disconnected discourse here and there. Great names appeared in the 20th century, which developed the theme under several aspects, more widely and consistently, trying to present efficient forms that could be used as an argument in the large global scenario. There were names like Albert Schweitzer, (1875-1965), winner of the Nobel Peace Prize of 1952, which called attention, among others, to the reality of the indissolubility of human beings with their environment and centralizes their reflections on the theme of respect for life: Respect in face of other forms of life. Unilateral anthropocentrism, or as presented by Hans Jonas, the "anthropocentric narrowing" is without any doubt an important constraint in the development of ethical relations with all elements of the biosphere.
The new dimensions of responsibility that Hans Jonas presents consider the changes in all of the scopes generated by scientific advances, which grant super powers to human beings, however, without them many times having power over the consequences of exercising power. Human beings are not isolated from other living beings, they are living beings and share with them the interdependence that allows for their subsistence or condemns them to extinction. Hans Jonas does not only question the power of interference and possible change of the being itself, but also the acceleration of the processes so that the metabolism – [Stoffaustausch] is affected in its normal course, not being able to regenerate and recreate in a process, whose rhythm is regulated by the cycle of Nature itself.
The human being is not "sovereign and owner of Nature", as affirmed by mathematician and philosopher René Descartes (1596-1650), at the beginning of the Enlightenment, but is responsible for the whole of Nature, i.e. the equilibrium of the whole biosphere depends on the human being. Knowing the reach of being able to do something and the suppositions of the consequences, which this knowledge allows, offers the human being an important role in the process of ecological preservation, i.e. the preservation of his own home and of all other living beings. "It is a prerogative of human freedom to say no to the world" (JONAS, H. p. 148). The world – the biosphere – is equipped with the values inherent to its purpose, but the human being is able to respect these values and even regenerate them. This is the importance of reflecting about the responsibility of human beings for and on behalf of the planet. According to Jonas, the human being, due to superiority of thinking is destroying the "symbiotic equilibrium". Therefore, human beings are being a threat to themselves.
He – Hans Jonas – as a representative of the ethical "Basic-Needs-Argument", part of basic needs like food, shelter, health, finally natural conditions, which are threatened by the style of living and being of humanity in the industrial age, reflects about the possibilities, although uncertain, generated by technology.
Living the present according to the future, to duty, and bringing the future to the present is an important element of ethics presented by Hans Jonas. Hence, the ethics not only of occupying and questioning about the living being, but also with the one not existent yet, and the non-existent in relation to the one existing today, because there is no future responsibility in relation to the non-existent today. Therefore, in this perspective, there is no relation in the law-duty reciprocity, specific to living in the same biosphere because the non-existent has done nothing for the existent here and now. But do you think he has the right of being one day? Who should guarantee him this right?
            Ethics of the Environment – of the biosphere – is presented in the post-modernity as the only chance of survival of all living beings.

Hans Jonas and the Ethical Principle of Environmental Responsibility in Times of Ecological Crisis.

An analysis of the present time in view of its trends of globalization and the destruction of Nature, points to an urgent change of paradigm. According to Hans Jonas, a new conscience is a necessary presumption to prevent an ecological catastrophe. The dialectics of Enlightenment reached the point of converging towards a catastrophe. In this context, Hans Jonas reflects about the new principle, the Responsibility Principle, which goes beyond the reciprocal relations of subjects, also known as being responsible for Nature. The ethics need to react to the challenges of Ecology and to an altered view of the world through technological advances. If on the one hand the world is in danger because of the atomic bomb, modern medicine benefits and is continuously challenged to answer ethical questions related to the possibilities created in the last few years. The philosophical argumentation of Hans Jonas parts from the need and imperative of time. Human beings specifically feel responsible for the things that put their life at risk. This is why it is necessary to reflect about the challenges of today before there is a catastrophe, an imminent possibility. The position of Hans Jonas’ philosophical thinking is in the pre-reflection. The theory of responsibility begins with Me and with my moral duty. However, above all, it means dealing with ethics from the perspective of the collective and of the future. Only those who have a “future project” rooted in moral convictions can say they fulfill the maximum responsibility in relation to being or of coming into being. The presumption towards a relation of responsibility is the continuous criticism of reason. The rational individual, according to Hans Jonas, is facing the dilemma: he either uses his intelligence for unlimited advance at the expense of ecological catastrophes, or he controls and guides the possibilities of development. This does not mean that research must stop, but should include thoughts about the possible consequences of research in the macro and micro dimensions. Hans Jonas proposes as the center of ethical reflection of the foreseeable danger, a look towards the possible planetary impact, and the consequences for all humanity, among other scenarios, which could guide the ethical principles and new duties on the new power. He calls this “heuristics of fear”. He urges the establishment of comprehensive and consistent ethical principles that guarantee the existence of future life on the planet. What needs to be prioritized and preserved in the human being in view of the dangers and threats of reaching an ethical want for respect due to all the forms of life that compose the biosphere? Nature gives signs of alert and Hans Jonas hopes these are enough to propose a positive reaction in the sense of saving the planet. Fear prevails over reason and requires fast and efficient responses. This perception of Hans Jonas originated from the enormous ecological problems and from the disproportionate ecological awareness of humanity to such a point that it is reaching extinction. "We only know about what is at stake, if we know what is at stake", (Jonas, p. 8).
Jonas also expands his ethics in the vertical sense, i.e. the universal and transcendent cosmos is the horizon ethics can reach, considering the consequences of the actions of human beings. He is not worried about the theory of perfection, of happiness, of moral dignity, but with the possibility of existence in itself because of the danger that the world / cosmos is under. He says that we need to worry initially about the sustainability of the world in the future. It is worth saving the world before saving the individuals. The anthropocentric ethics gives place to a paradigm of supra-individual ethics. This considers a necessary leap to the being-with-the-world, where a true relation of equal value is established, "Mitwelt", i.e. the respect and mutual enchantments are not established in a disparate relationship centered on a unique element of Nature, in the case of anthropocentrism, the human being.
Jonas parts from the responsibility of person to person, however, extended to the biosphere in a holistic view, contemplating the Wholeness, Continuity and Future. He highlights the self-organization of Nature. This organizes itself and has its own purpose. For this reason, the human being cannot suppress it or exploit it indiscriminately. Thus, Nature requires the paradigm of acting responsibly, i.e. ethics of duty.
The Categorical Imperative of Hans Jonas is founded on the duty of acting sensibly. It is the ethics of responsibility that should act as the criterion of human behavior. Like Kant (1724-1804), for Hans Jonas a moral precept, as formulated in the Categorical Imperative, should have universal validity. For Jonas, it is necessary to expand the formalism of Kant’s ethics to an ethics of feeling, of intuition, including respect for life. In the place of formal ethics, Jonas presents ethics of values and feelings. The dimension of a responsibility for the future, i.e. a perspective of time should have its space in the categorical principle. While Kant previews contemporariness as the horizon of ethics, in a relationship of subjects, as living beings of time and space that are close, Hans Jonas predicts the consequences, even though uncertain, of the today’s actions for the future generations.
The Responsibility Principle in Hans Jonas does not depend on a certain aspect, but always arouses a reflection of the whole: "It acts as if the effects of its action are compatible with the permanence of a life authentically human on the earth". "The Categorical Imperative simply proposes that there are human beings, stressing at the same time the what of existence". (Jonas, p.92). It talks about the idea of being and not of acting. In practical ethics, it does not deal with a metaphysical reflection about existing or not existing, but is based on the premises that they exist, ethics is necessary to question the quality of existence. The first principle of "ethics of the future" does not reside firstly in the ethics of acting, but in the Metaphysics of teaching to be. The existence of human beings implies in ethics by the means in which they can exist and the convenience of their habitat. Can the non-being have preference over the being? Here we can apply the question made by Leibniz: Why is there something rather than nothing? The being-in-the-world is independent from any thesis of its own origin.
According to Hans Jonas, the Responsibility Principle requires wisdom, knowledge and humility. The comfort generated by modern technology, in a hedonist perspective, reduces the natural capacity of the human being to a healthy option between the desires of daily life and the latter purposes, which require from him wisdom and determination. The incorporation of new needs in our concrete life requires an ethical evaluation and consequent decision for the present and future.
Being aware of the impossibility of predicting correctly, you need to recognize the ignorance and act according to the speculations, although they offer no certainties. A possible irreversibility of the consequences should motivate human beings into seeking scientific knowledge for “informed ethics”, but at the same time they should be aware of a paradigm that integrates the vigilance of their “super-powers” to act responsibly.
The new powers granted to human action through scientific and technological advance result in an impact at collective and not only at individual level, at global and not only at local level, therefore with incomparable magnitude, under the form of a public policy. The policy, in turn, regarding responsibilities is changed by the almost unlimited possibilities of human action.
Are Governments prepared to face these new challenges and requirements? What principles and interests govern the current political decisions regarding Environmental protection?
            The new imperative of Hans Jonas is directed to the public policy considering a remote term. Without disregarding the immediate actions, it is concentrated on the ultimate effects of continued human activity, in the future. Universalization is not hypothetical, but is submitted to the collective as a whole, meeting the real measure of coming into effect.
            Governors and legislators are the protagonists of a sustainable world. The Best State is also the one that promotes and ensures the future through public policies of Environmental protection, which are consistent, comprehensive and everlasting.

It is possible to base a future dimension on the common aspiration in the perspective of a global ethos, thus allowing future generations to enjoy a fascination for Nature and guarantee its survival, as in the guarantee given to current generations.
            In order to understand Hans Jonas’ thoughts, we need to run through the itinerary of the reflections that he presents and, in addition, analyze the reading made by Kant, identifying similar and distinct elements in the elaboration of his Categorical Imperative, highlighting, in Hans Jonas, responsibility in the political scope with the horizon focused on the future.
Ecological problems have always been known, but there was no notion of the extension of the actual damage these would cause to human beings, because the reading was made more or less precisely, without considering the great impact on the  Environment and its inter-relations with the whole biosphere. With the industrial revolution, problems related to the Environment intensified and, only then, these issues were brought to the scope of philosophical reflections as a way of developing ethical relations between human beings and their Habitat.
Among various factors to be considered, we have mentioned three which are always on the daily agenda of the main conferences on the Environment:
  1. Both renewable and non-renewable resources are being used more and more;
  2. The ecosystem is affected by emissions and pollutants;
  3. Human space is constituted from migrations due to industries, and is always advancing. In this scope, human beings interfere in the processes of global amplitude.

These concerns, in one form or another, are already on the agenda of events and conferences, considering the need of taking action in face of the current ecological panorama. In 1972, the Club of Rome, called attention, dramatically, to the ecological problems in Europe, generated by the industrialization of the North. ECO-92, Rio-92, Earth Summit, is one of the United Nations Conference on the Environment and Development (CNUMAD, in Portuguese), held in Rio de Janeiro. Its main objective was to seek a means of conciliating the socio-economic development with the preservation and protection of the Earth’s ecosystems.
In April 2007, the IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), disclosed the second part of the report on climate change on Earth. The study presents data that proves that human beings are responsible for Environmental changes: 90% of Environmental changes are anthropogenic, i.e., caused by humankind itself.

In all of these environments the finding is the same: In a planetary vision, you need to reflect on the responsibility of human beings regarding the common home and develop a vision of the Earth as Mother Country, the Gaia, which allows them and every living being to exist, live and survive with quality, if they have a sense of responsibility for today and also regarding future generations. Therefore, a reflection is necessary on the ethical responsibility of human beings in their relation with the biosphere.

Considering all of the other species on Earth, it is essential to understand that the human community has, without any doubt, a crucial role both for our own survival and the survival and integrity of the terrestrial community as a whole. (O'Sullivan, 1999, p.49)


It is important to reflect about the ethics of acting not only individually, but, overall, collectively, where the dynamics, both cumulatively and inter-relationally of the technological development, encourage a responsibility for the consequences of this in a planetary dimension.


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