19 de nov. de 2017

Dia dos Pobres - um desafio para a sensibilidade humana

Teóloga Dr.ª Geni Maria Hoss
disponível em: genihoss.blogspot.com 

"'Em diversas áreas do planeta o nível do bem-estar continua a crescer, mas aumenta ameaçadoramente o número dos novos pobres e se alarga, por várias regiões, o hiato entre países menos desenvolvidos e países ricos. O mercado livre, processo econômico com lados positivos, manifesta todavia os seus limites. Por outro lado, o amor preferencial pelos pobres representa uma opção fundamental da Igreja, e ela o propõe a todos os homens de boa vontade' (DSI n. 3).

Há ricos pobres e pobres ricos! Eis porque falar do pobre não pode ser reduzido à condição econômica, embora esta seja determinante para a garantia de um mínimo necessário para a vida digna. O importante é não confundir a pobreza material com a pobreza humanitária. Por isso, há pobres econômicos de uma extrema riqueza humanitária. Sabem compartilhar espontânea e abnegadamente. Há ricos que são pobres na sensibilidade de perceber a necessidade do outro. Precisam reaprender a ser gente - precisam humanizar-se para que suas atitudes sejam também humanizadas e humanizadoras. 
Superar a pobreza não pode reduzir-se a gestos pequenos e pontuais, embora estes sejam extremamente importantes, é preciso uma jornada mundial em prol da vida, das necessidades mínimas da dignidade humana. Para alguns faltam bens materiais, outros carecem de bens humanitários. Todos igualmente necessitam de doação e ao mesmo tempo doar-se. As "estruturas sociais" opressoras são geradas e mantidas pela estrutura de pecado da humanidade. Pecado individual e social, pois se a pessoa não protagoniza um novo modo de ser em sociedade e para a sociedade, ela, no mínimo, permite que se estabeleçam e mantenham estruturas destruidoras da dignidade humana. Acordar, tomar iniciativa, agregar-se a grupos de afinidade é relevante. Mas não se trata exclusivamente de marchar e se manifestar publicamente. Antes disso, é preciso restabelecer a liderança e o protagonismo comunitário. Muitos aparecem só em dia de levantar a bandeira, o que pouco muda, embora seja uma relevante forma de manifestar a opinião e o desejo dos rumos da sociedade. A questão é: por que estão vazias muitas das cadeiras destinadas aos cidadãos para o exercício do controle social? Será que as ditaduras, inclusive aquelas disfarçadas de democracias, ainda dominam a nossa consciência cidadã? A lei do pensamento único, resultante das contínuas lutas entre dois extremos, está roubando muita iniciativa e criatividade. Se o cidadão quer paz, ele se sente obrigado a não expressar sua opinião. Porque em grande parte, a diferença de opiniões gera a mais perversa condenação pública - porque os espaços virtuais acabam sendo uma vitrine de exposição pública. E aqui não se está privilegiando nenhuma orientação política. Simplesmente é uma chaga social a ser aceita pela autocrítica e superada pela responsabilidade social e política de cada cidadão."

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"In different areas of the planet the level of well-being continues to grow, but there is also a dangerous increase in the numbers of those who are becoming poor, and, for various reasons, the gap between less developed and rich countries is widening. The free market, an economic process with positive aspects, is nonetheless showing its limitations. On the other hand, the preferential love for the poor represents a fundamental choice for the Church, and she proposes it to all people of good will".
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"En diversas áreas del planeta, el nivel de bienestar sigue creciendo, pero también aumenta peligrosamente el número de los nuevos pobres y se amplía, por diversas razones, la distancia entre los países menos desarrollados y los países ricos. El libre mercado, que es un proceso económico con aspectos positivos, manifiesta sin embargo sus limitaciones. Por otra parte, el amor preferencial por los pobres representa una opción fundamental de la Iglesia, y Ella la propone a todos los hombres de buena voluntad".

12 de nov. de 2017

Cultura do descarte!

"O sistema industrial, no final do ciclo de produção e consumo, não desenvolveu a capacidade de absorver e reutilizar resíduos e escórias. Ainda não se conseguiu adotar um modelo circular de produção que assegure recursos para todos e para as gerações futuras e que exige limitar, o mais possível, o uso dos recursos não renováveis, moderando o seu consumo, maximizando a eficiência no seu aproveitamento, reutilizando e reciclando-os. A resolução desta questão seria uma maneira de contrastar a cultura do descarte que acaba por danificar o planeta inteiro, mas nota-se que os progressos neste sentido são ainda muito escassos" (Papa Francisco, Laudato Si n. 22).

Já pensou viver com o mínimo? Já pensou em usar um celular 'fora de moda'? Está difícil para se imaginar num mundo em que as coisas são recicladas. Quantas vezes as compras de vestuário não são motivadas pela necessidade, mas pela 'modinha' e de repente os guarda-roupas estão cheias de peças que nem são usadas... e quantas vezes ainda etiquetadas enquanto a gente corre para a próxima compra. Quantos sapatos são necessários para ser feliz? Já pensou em não esquecer de levar uma sacola para as compras do supermercado? O mercado segue a onda das demandas e também cria "necessidades desnecessárias" nas mentes dos clientes. É uma constante apelação, usando dos mais diversos artifícios, para conquistar pessoas que, por sua vez, caem nas armadilhas para comprar sempre mais.... E quantas vezes às custas do verdadeiramente necessário. Ou você nunca deixou de fazer algo de bom para a saúde por falta de dinheiro e ao mesmo tempo está com uma série de coisas desnecessárias? Conte o número dos seus sapatos e de seus livros, depois conclua... As gerações do descarte precisam aprender a reutilizar... No caso do guarda-roupas, com criatividade dá para "atualizar" aquele velho vestido e fazer dele uma "modinha" bem bacana. Calçados, para que tantos? Adquira alguns poucos básicos que se adequem às diferentes circunstâncias e combinem com diferentes tipos de vestuário. Faça um teste e em poucos meses vai perceber quão leve a gente fica quando os armários estiverem mais vazios e te tirarem menos tempo para mantê-los sempre em ordem e as lavagens de roupa se tornarem mais simples. Sabe aquela lavagem de roupas guardadas, emboloradas por falta de uso? Sumiram! E você poderá usar este tempo para dar uma caminhada, jogar conversa fora com a vizinha.. Ah, você conhece sua vizinha? Provavelmente você tem uma e que gostaria de conhecer a sua também....

Suicídio - um caso de saúde pública

 Dr.ª Geni Maria Hoss
Teóloga, bioeticista, professora, tradutora
disponível em: genihoss.blogspot.com
 
"Embora certos condicionalismos psicológicos, culturais e sociais possam levar a realizar um gesto que tão radicalmente contradiz a inclinação natural de cada um à vida, atenuando ou anulando a responsabilidade subjectiva, o suicídio, sob o perfil objetivo, é um ato gravemente imoral, porque comporta a recusa do amor por si mesmo e a renúncia aos deveres de justiça e caridade para com o próximo, com as várias comunidades de que se faz parte, e com a sociedade no seu conjunto" (João Paulo II, Evangelium Vitae, n. 66).

Um dia encontrei uma mãe desesperada num corredor de hospital. Ela havia "brigado" com a sua filha, 14 anos, e esta saiu alterada de casa e, ao atravessar a rua, foi atropelada. Infelizmente o caso foi fatal. A mãe começou a cogitar suicídio e se culpava por isso. Outro motivo, a família era cristã, para tal desespero era que a filha poderia não alcançar a salvação.
Era, supostamente, mais um dos milhares de caso de suicídio. No entanto, mesmo que haja algum sinal de que pode ser suicídio, neste caso, pode ter sido um acidente. Para que se possa classificar como suicídio, é preciso que se tenham elementos claros o suficiente para tal. Também não é direito de ninguém julgar um suicida. Objetivamente é um atentado contra a vida, mas há muitas condições que diminuem ou até mesmo suprimem a responsabilidade.
Hoje, o suicídio não pode mais ser visto como uma exceção... A frequência com que as pessoas tiram sua própria vida já se tornou uma questão de saúde pública. As causas são diversas e muitas vezes tão sutis que somente depois do fato consumado se começam a identificar os indícios do que poderia vir a acontecer. Precisamos olhar com mais carinho para as possíveis condições e causas: estar atentos às questões de saúde mental, educar as crianças desde a mais tenra idade para o fortalecimento pessoal diante das adversidades da vida, valorizar a vida através de uma contínua reflexão e educação para o sentido da vida ancorado em valores maiores.
O excesso de ofertas que promovem bem-estar e prazer produz um vazio existencial, caso o sentido da vida se reduza ao desfrute dos benefícios imediatos de bens temporais. É preciso projetar uma luz para além daquilo que hoje nos satisfaz e amanhã fenece. O sentido último da vida precisa sustentar-se num bem maior e duradouro. Nem mesmo as pessoas que estão ao nosso lado podem ser tidas como este bem último, também elas são frágeis e hoje podem te dar suporte e amanhã podem não mais estar entre nós. 
Não importa qual é o nosso valor maior, qual é a nossa fé, mas é relevante que tenhamos referência em uma força superior. 
Para os cristãos, toda a força e sentido de vida é iluminado pela fé na ressurreição em Cristo. O que é passageiro tem seu valor passageiro. Nem tudo o que é passageiro é insignificante, mas tem seu valor delimitado no tempo e no espaço. A fé na ressurreição em Cristo, no entanto, dá um sentido a partir de um horizonte seguro.