12 de nov. de 2017

Suicídio - um caso de saúde pública

 Dr.ª Geni Maria Hoss
Teóloga, bioeticista, professora, tradutora
disponível em: genihoss.blogspot.com
 
"Embora certos condicionalismos psicológicos, culturais e sociais possam levar a realizar um gesto que tão radicalmente contradiz a inclinação natural de cada um à vida, atenuando ou anulando a responsabilidade subjectiva, o suicídio, sob o perfil objetivo, é um ato gravemente imoral, porque comporta a recusa do amor por si mesmo e a renúncia aos deveres de justiça e caridade para com o próximo, com as várias comunidades de que se faz parte, e com a sociedade no seu conjunto" (João Paulo II, Evangelium Vitae, n. 66).

Um dia encontrei uma mãe desesperada num corredor de hospital. Ela havia "brigado" com a sua filha, 14 anos, e esta saiu alterada de casa e, ao atravessar a rua, foi atropelada. Infelizmente o caso foi fatal. A mãe começou a cogitar suicídio e se culpava por isso. Outro motivo, a família era cristã, para tal desespero era que a filha poderia não alcançar a salvação.
Era, supostamente, mais um dos milhares de caso de suicídio. No entanto, mesmo que haja algum sinal de que pode ser suicídio, neste caso, pode ter sido um acidente. Para que se possa classificar como suicídio, é preciso que se tenham elementos claros o suficiente para tal. Também não é direito de ninguém julgar um suicida. Objetivamente é um atentado contra a vida, mas há muitas condições que diminuem ou até mesmo suprimem a responsabilidade.
Hoje, o suicídio não pode mais ser visto como uma exceção... A frequência com que as pessoas tiram sua própria vida já se tornou uma questão de saúde pública. As causas são diversas e muitas vezes tão sutis que somente depois do fato consumado se começam a identificar os indícios do que poderia vir a acontecer. Precisamos olhar com mais carinho para as possíveis condições e causas: estar atentos às questões de saúde mental, educar as crianças desde a mais tenra idade para o fortalecimento pessoal diante das adversidades da vida, valorizar a vida através de uma contínua reflexão e educação para o sentido da vida ancorado em valores maiores.
O excesso de ofertas que promovem bem-estar e prazer produz um vazio existencial, caso o sentido da vida se reduza ao desfrute dos benefícios imediatos de bens temporais. É preciso projetar uma luz para além daquilo que hoje nos satisfaz e amanhã fenece. O sentido último da vida precisa sustentar-se num bem maior e duradouro. Nem mesmo as pessoas que estão ao nosso lado podem ser tidas como este bem último, também elas são frágeis e hoje podem te dar suporte e amanhã podem não mais estar entre nós. 
Não importa qual é o nosso valor maior, qual é a nossa fé, mas é relevante que tenhamos referência em uma força superior. 
Para os cristãos, toda a força e sentido de vida é iluminado pela fé na ressurreição em Cristo. O que é passageiro tem seu valor passageiro. Nem tudo o que é passageiro é insignificante, mas tem seu valor delimitado no tempo e no espaço. A fé na ressurreição em Cristo, no entanto, dá um sentido a partir de um horizonte seguro.

7 de nov. de 2017

A unidade é fruto do Espírito Santo!

Dr.ª Geni Maria Hoss

 

"O Espírito Santo constrói a comunhão e a harmonia do povo de Deus. Ele mesmo é a harmonia, tal como é o vínculo de amor entre o Pai e o Filho. É Ele que suscita uma abundante e diversificada riqueza de dons e, ao mesmo tempo, constrói uma unidade que nunca é uniformidade, mas multiforme harmonia que atrai" (Evangelii Gaudium n. 117).


A unidade é fruto do Espírito Santo! Os discursos eloquentemente articulados sobre a diversidade, muitas vezes, esbarram na primeira oportunidade em que se depara com o diferente. Sem o Espírito Santo, o velho discurso carece de coerência na prática. Por isso, mesmo não é de se admirar quando em meios pretensamente defensores da diversidade existe uma verdadeira digladiação recíproca entre diferentes pensares. Tipo "diversidade, sim, enquanto sua opinião se submeta à minha!".  E por que há ainda entre cristãos, e por que não dizer entre teólogos, tanto desrespeito pelo diferente? Pode ser que o Espírito Santo os inspirasse a tratar o outro como o menos inteligente só porque defende ideias diferentes? Não, este não é o Espírito Santo! Trata-se de uma confusão entre a arrogância e a força que vem do alto. O Espírito Santo não é um objeto a ser usado a favor das próprias ideias, mas uma força unificadora e santificante que ilumina de forma a fazer reconhecer, em primeiro lugar, as próprias limitações. Se é o Espírito Santo, a força e santificante e unificadora, se for a própria arrogância, a força e destruidora, mas que se diga, destruidora de si próprio, porque a opinião alheia pode, sim, ser diferente, mas julgar-se superior, ah, isso sim é destruidor.

27 de out. de 2017

Mulher GG - Genitora e Gestora

 Dr.ª Geni Maria Hoss
Teóloga e bioeticista
 
"A Igreja reconhece a indispensável contribuição da mulher na sociedade, com uma sensibilidade, uma intuição e certas capacidades peculiares, que habitualmente são mais próprias das mulheres que dos homens. Por exemplo, a especial solicitude feminina pelos outros, que se exprime de modo particular, mas não exclusivamente, na maternidade. Vejo, com prazer, como muitas mulheres partilham responsabilidades pastorais juntamente com os sacerdotes, contribuem para o acompanhamento de pessoas, famílias ou grupos e prestam novas contribuições para a reflexão teológica. Mas ainda é preciso ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja. Porque 'o gênio feminino é necessário em todas as expressões da vida social; por isso deve ser garantida a presença das mulheres também no âmbito do trabalho' e nos vários lugares onde se tomam as decisões importantes, tanto na Igreja como nas estruturas sociais" (Evangelii Gaudium n. 103).

O respeito pela mulher considera essencialmente sua maneira própria de ser. Respeitá-la à medida em que se adapta e assume outros modos de ser não é respeito e, sim, reforço de preconceitos. Para ser mulher, não é preciso abdicar da beleza da maternidade, mas também sua missão no mundo não pode ser reduzida a ela. Ademais, é preciso entender que a própria maternidade não se reduz a geração de filhos biológicos, mas é própria do seu gênio que acolhe e cuida da vida. O olhar próprio da mulher é essencial para o equilíbrio da sociedade. O mundo carece de sua perspicácia de percepção para colocar o ser humano no centro do cuidado da vida. A intuição natural para que é essencial para o desenvolvimento humano a faz protagonista no campo da vida. A Igreja e a sociedade precisam desta presença feminina de forma ativa. A sua habilidade é perfeitamente compatível com a tomada de grandes decisões. Por isso, não há fundamento a sua quase ausência em alguns campo de direção. Mais uma vez: a gestão não é coisa própria de um ou outro, ou homem ou mulher, mas da colaboração de ambos, podendo perfeitamente a mulher estar à frente de equipes de gestão. O importante é entender as peculiaridades de cada um e colocá-las a serviço do todo.

9 de ago. de 2017

Estágios da morte - Elisabeth Kübler-Ross

(Dr.ª Geni Maria Hoss)
Grande referência no estudo da morte (tanatologia) é, sem dúvida, Elisabeth Kübler-Ross. Kübler-Ross nasceu na Suíça, mas viveu nos EUA, onde acompanhou milhares de pessoas no estágio final da vida. É defensora dos cuidados paliativos por entender a urgente necessidade de humanização e cuidado a fim de que as pessoas possam viver com sentido de vida até o fim da vida. A projeção internacional do seu trabalho se deu ao publicar, em 1969, o livro Sobre a morte e o morrer [On death and dying]. Ela diz:

“Quanto mais avançamos na ciência, mais parece que tememos e negamos a realidade da morte. Como é possível? Recorremos aos eufemismos; fazemos com que o morto pareça adormecido; mandamos que as crianças saiam, para protegê-las da ansiedade e do túmulo reinantes na casa, isto quando o paciente tem a felicidade de morrer em seu lar; impedimos que as crianças visitem seus pais que se encontram à beira da morte nos hospitais; sustentamos discussões longas e controvertidas sobre dizer ou não a verdade ao paciente, dúvida que raramente surge quando é atendido pelo médico da família que o acompanhou desde o parto até a morte e que está a par das fraquezas e forças de cada membro da família.” (Kübler-Ross, 1996, p. 19).

 Ao contrário de tantas outras coisas, a morte é a coisa mais certa da vida. Embora, trabalhe a questão de forma ampla, ela dá um sentido à vida a partir da esperança da não finitude absoluta: “Morrer é como mudar-se de uma casa para outra mais bonita.” (Kübler-Ross, 2007, p. 11). Ela trata, portanto, a questão como um novo nascimento, o que abre uma perspectiva nova. “A experiência da morte é quase idêntica à do nascimento. É como nascer para uma vida diferente, que pode ser vivida com muita simplicidade. Por milhares de anos você foi levado a “acreditar” nas coisas do além. Mas, para mim já não se trata de acreditar, mas de saber.” (Kübler-Ross, 2007, p. 10). As suas observações e pesquisas identificaram uma percepção semelhante no final da vida, porém, com elementos próprios das crenças individuais.
Kübler-Ross é conhecida por defender cinco estágios que a pessoa passa no final da vida, evidentemente se fala de uma possibilidade de consciência da situação. Defendemos os estágios, porém, a sequência é um caminho muito particular, podendo ter idas e vindas, o que é bom observar quando se trata de acompanhar alguém neste estágio.
Os cinco estágios foram desenvolvidos por Kübler-Ross, no livro Sobre a morte e o morrer - do cap. III ao cap. VII.

1.      A negação:

    “Não, eu não, não pode ser verdade!” (Kübler-Ross, 1996, p. 51). A primeira reação é a da não aceitação. Eu tinha tanto ainda para viver.... É preciso algum tempo para assimilar a informação sobre o real estado de saúde, portanto, mais do que conselhos, a pessoa precisa ser ouvida, acolhida e compreendida.

2.      A raiva 

    “Não, não é verdade, isso não pode acontecer comigo!” (Kübler-Ross, 1996, p. 63). A raiva já indica um estágio de compreensão da própria condição. Ela vem muitas vezes acompanhada com a alteração da rotina, da interrupção de atividades, o que muda substancialmente o modo de viver e acentua a percepção do fim iminente. 

3.      A barganha

 “Se Deus decidiu levar-me deste mundo e não atendeu meus apelos cheios de ira, talvez seja mais condescendente se eu apelar com calma.” (Kübler Ross, 1996, p. 95).  Já tenho experimentado profundamente a incapacidade do domínio sobre a própria vida, já tendo buscado uma força transcendente, a barganha significa uma última opção para que efetivamente algo desejado – a libertação da morte naquele momento – aconteça efetivamente. A barganha inclui moeda de troca. Neste estágio há muitas promessas, por vezes secretas. Já o comportamento agressivo do estágio anterior tende a desaparecer e, no lugar dele, a pessoa se torna mais calma e reflexiva.

4.      A depressão

A própria debilidade física e psíquica da pessoa vai indicando o fim próximo. Além disso, o ambiente externo vai dando sinais de que algo está diferente. Particularmente neste estágio, a pessoa acaba recebendo visitas que, antes, eram raras ou mesmo ausentes. Mesmo na falta de uma boa comunicação entre equipe médica e familiares ou cuidadores legalmente constituídos, o ambiente comunica algo. É um estágio particularmente difícil se a pessoa não está devidamente informada e ao mesmo tempo ela vai captando “no ar” algo de estranho sobre sua pessoa.

5.      A aceitação

É o último estágio, portanto, de plena consciência de que está acontecendo. Neste estágio, a pessoa aceita sua condição e é extremamente relevante que se criem possibilidades de, segundo suas condições, poder permanecer integrada nos seus ambientes, que realize seus desejos. De modo especial, deve-se cuidar e entender, talvez só nas entrelinhas, suas últimas necessidades: de resolver coisas pendentes. Estas podem ser de ordem econômica, relacional, espiritual. É neste estágio que surge a vontade de ver alguma pessoa distante de pedir ou ter o perdão de algum familiar. Pais jovens, por vezes, precisam saber sobre o cuidado de seus filhos. É um estágio importante também para o cuidado espiritual, segundo a crença de cada um.  

Compreender as cinco fases observadas por Kübler-Ross ajuda a ajudar de forma mais acertada nestas fases distintas, embora não se possa defendê-las como uniformidade e, sim, nas suas manifestações sempre individualizadas. Elas podem não ter uma sequência tão distinta, mas condições pessoais podem permitir que algum estágio vencido volte a se manifestar. Um exemplo concreto, são situações como a informação sobre tratamentos disponíveis em algum lugar antes não conhecido, algumas pessoas que convencem e reanimam a partir de alguma promessa na linha da fé... A própria personalidade da pessoa torna este caminho bem particular e sempre novo de modo que não se pode prescrevê-lo ou segui-lo a partir de descrições anteriores.

Bibliografia

KÜBLER-ROSS, Elisabeth. A morte: um amanhecer. 6. ed. São Paulo: Pensamento, 2007.
______ Sobre a Morte e o Morrer. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996. Tradução: Paulo Menezes.