"Um país só se desenvolve em favor do povo, ou seja, restitui o imposto em forma de serviço público de qualidade se o cidadão assumir a parcela de responsabilidade que lhe cabe: o controle social. O Estado social forte e qualificado é a dança dos políticos segundo a música do cidadão e não o inverso. Somos, portanto, todos líderes políticos, mesmo que a grande maioria dos cidadãos não chega a ocupar um cargo oficial." (citação de palestra da Dra. Geni Maria Hoss, teóloga e bioeticistas, dezembro de 2018)
5 de mar. de 2019
3 de jul. de 2018
Bioética à luz da reflexão cristã católica: Vulnerabilidade e proteção especial
"Há grupos e povos que são vulneráveis por suas condições cristãs sociopolíticas cotidianas ou por conflitos e guerras de natureza diversa. No entanto, esses indivíduos não podem ser encarados como meros objetos de grandes decisões políticas merecendo estar no centro dos debates bioéticos. os dilemas sobre as condições desfavoráveis de uma sociedade são ainda mais graves, já que tanto o cuidado preventivo relativo a efeitos nocivos quanto as intervenções posteriores implicam em muitas questões éticas [...]. Vale destacarmos que os vulneráveis, muitas vezes, são fruto de sociedades injustas e exclusivas e de economias liberais utilitaristas que geram pobres por exclusão socioeconômica e negam direitos fundamentais, mesmo que esses estejam garantidos em suas respectivas constituições."
(Hoss, Geni Maria. Bioética à luz da reflexão cristã católica. Curitiba: Intersaberes, 2018, p. 118.)
26 de mar. de 2018
Sustentabilidade x Nachhaltigkeit - o começo de tudo!
Segue um recorte da palestra da professora Dr.ª Geni Maria Hoss sobre a sustentabilidade:
"Quando se fala do neologismo sustentabilidade existem menções ao termo, embora bastante vagas, já no ano de 1560, na Saxônia, Alemanha. Portanto, desde esta época conhece-se o termo “Nachhaltigkeit”. O movimento das grandes potências marítimas como Espanha e Portugal acenderam uma luzinha para a questão dos recursos naturais, particularmente, das florestas na Europa.
Porém, a ideia tomou corpo somente com Hans Carl von Carlowitz (1645 – 1714) que, ao visitar diversos países europeus, constatou também lá o conhecido problema da exploração das florestas, na Alemanha. Este se multiplicava em diversos países da região. Com sua obra Sylvicultura oeconomica, em 1713, ele apresenta a necessidade da gestão das florestas sustentáveis. Sua recomendação se tornou a pedra fundamental da administração das florestas: “Só devem ser derrubadas tantas árvores quantas possam crescer novamente”.[1]
Mas qual a situação da qual emerge o problema da escassez de madeira?
Naquela época a madeira foi a principal matéria-prima, que não era usada apenas para a construção, porém como combustível para cozinhar e aquecer. A matéria-prima era também indispensável para muitos processos de produção pré-industrial e construção de navios. O resultado foi o desmatamento e devastação de grandes áreas de mata na Europa. A Alemanha, na época, estava menos arborizada do que hoje. Também a mineração dependia da madeira. A mineração de prata nos Erzgebirge [montanhas] que, na época, era a espinha dorsal da economia da Saxonia, estava ameaçada. Isto não por falta de minério de prata, porém pela rápida diminuição [da madeira]. (Lexikon der Nachhaltigkeit, 2015, tradução nossa)[2]
O termo nachhaltig (sustentável) foi traduzido no decorrer do século 19 em diversas línguas com vários acentos (sustainable, durable; duraturo). Na dinâmica da exploração da matéria-prima se pode ter as posturas distintas: uso planejado segundo recuperação natural, organizar e promover processos de recuperação, produzir as matérias-primas para substituir as extintas. Por longos anos, a sustentabilidade se concentrou na gestão das florestas como matéria-prima para diversos usos."
[1] Es sollte nur so viel Wald geschlagen werden, wie wieder nachwächst.
[2] „Holz war damals der wichtigste Rohstoff, der nicht nur zum Bauen gebraucht wurde, sondern auch Energieträger zum Kochen und Heizen war. Auch für viele vorindustrielle Produktionsprozesse und den Schiffbau war der Rohstoff unabdingbar. So kam es, dass weite Flächen in Europa entwaldet wurden und verödeten. Deutschland war damals weit geringer bewaldet als heute. Auch der Bergbau war auf Holz angewiesen. Der Silberbergbau im Erzgebirge, seinerzeit das wirtschaftliche Rückgrat Sachsens, war in seiner Existenz bedroht. Dies war nicht etwa aus Mangel an Silbererz der Fall, sondern wegen der sich schnell verschärfenden Holzknappheit.“
26 de nov. de 2017
19 de nov. de 2017
Dia dos Pobres - um desafio para a sensibilidade humana
Teóloga Dr.ª Geni Maria Hoss
disponível em: genihoss.blogspot.com
"'Em diversas áreas do planeta o nível do bem-estar continua a crescer, mas aumenta ameaçadoramente o número dos novos pobres e se alarga, por várias regiões, o hiato entre países menos desenvolvidos e países ricos. O mercado livre, processo econômico com lados positivos, manifesta todavia os seus limites. Por outro lado, o amor preferencial pelos pobres representa uma opção fundamental da Igreja, e ela o propõe a todos os homens de boa vontade' (DSI n. 3).
Há ricos pobres e pobres ricos! Eis porque falar do pobre não pode ser reduzido à condição econômica, embora esta seja determinante para a garantia de um mínimo necessário para a vida digna. O importante é não confundir a pobreza material com a pobreza humanitária. Por isso, há pobres econômicos de uma extrema riqueza humanitária. Sabem compartilhar espontânea e abnegadamente. Há ricos que são pobres na sensibilidade de perceber a necessidade do outro. Precisam reaprender a ser gente - precisam humanizar-se para que suas atitudes sejam também humanizadas e humanizadoras.
Superar a pobreza não pode reduzir-se a gestos pequenos e pontuais, embora estes sejam extremamente importantes, é preciso uma jornada mundial em prol da vida, das necessidades mínimas da dignidade humana. Para alguns faltam bens materiais, outros carecem de bens humanitários. Todos igualmente necessitam de doação e ao mesmo tempo doar-se. As "estruturas sociais" opressoras são geradas e mantidas pela estrutura de pecado da humanidade. Pecado individual e social, pois se a pessoa não protagoniza um novo modo de ser em sociedade e para a sociedade, ela, no mínimo, permite que se estabeleçam e mantenham estruturas destruidoras da dignidade humana. Acordar, tomar iniciativa, agregar-se a grupos de afinidade é relevante. Mas não se trata exclusivamente de marchar e se manifestar publicamente. Antes disso, é preciso restabelecer a liderança e o protagonismo comunitário. Muitos aparecem só em dia de levantar a bandeira, o que pouco muda, embora seja uma relevante forma de manifestar a opinião e o desejo dos rumos da sociedade. A questão é: por que estão vazias muitas das cadeiras destinadas aos cidadãos para o exercício do controle social? Será que as ditaduras, inclusive aquelas disfarçadas de democracias, ainda dominam a nossa consciência cidadã? A lei do pensamento único, resultante das contínuas lutas entre dois extremos, está roubando muita iniciativa e criatividade. Se o cidadão quer paz, ele se sente obrigado a não expressar sua opinião. Porque em grande parte, a diferença de opiniões gera a mais perversa condenação pública - porque os espaços virtuais acabam sendo uma vitrine de exposição pública. E aqui não se está privilegiando nenhuma orientação política. Simplesmente é uma chaga social a ser aceita pela autocrítica e superada pela responsabilidade social e política de cada cidadão."
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"In different areas of the planet the level of well-being continues to grow, but there is also a dangerous increase in the numbers of those who are becoming poor, and, for various reasons, the gap between less developed and rich countries is widening. The free market, an economic process with positive aspects, is nonetheless showing its limitations. On the other hand, the preferential love for the poor represents a fundamental choice for the Church, and she proposes it to all people of good will".
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"En diversas áreas del planeta, el nivel de bienestar sigue creciendo, pero también aumenta peligrosamente el número de los nuevos pobres y se amplía, por diversas razones, la distancia entre los países menos desarrollados y los países ricos. El libre mercado, que es un proceso económico con aspectos positivos, manifiesta sin embargo sus limitaciones. Por otra parte, el amor preferencial por los pobres representa una opción fundamental de la Iglesia, y Ella la propone a todos los hombres de buena voluntad".
12 de nov. de 2017
Cultura do descarte!
"O sistema industrial, no final do ciclo de produção e consumo, não desenvolveu a capacidade de absorver e reutilizar resíduos e escórias. Ainda não se conseguiu adotar um modelo circular de produção que assegure recursos para todos e para as gerações futuras e que exige limitar, o mais possível, o uso dos recursos não renováveis, moderando o seu consumo, maximizando a eficiência no seu aproveitamento, reutilizando e reciclando-os. A resolução desta questão seria uma maneira de contrastar a cultura do descarte que acaba por danificar o planeta inteiro, mas nota-se que os progressos neste sentido são ainda muito escassos" (Papa Francisco, Laudato Si n. 22).
Já pensou viver com o mínimo? Já pensou em usar um celular 'fora de moda'? Está difícil para se imaginar num mundo em que as coisas são recicladas. Quantas vezes as compras de vestuário não são motivadas pela necessidade, mas pela 'modinha' e de repente os guarda-roupas estão cheias de peças que nem são usadas... e quantas vezes ainda etiquetadas enquanto a gente corre para a próxima compra. Quantos sapatos são necessários para ser feliz? Já pensou em não esquecer de levar uma sacola para as compras do supermercado? O mercado segue a onda das demandas e também cria "necessidades desnecessárias" nas mentes dos clientes. É uma constante apelação, usando dos mais diversos artifícios, para conquistar pessoas que, por sua vez, caem nas armadilhas para comprar sempre mais.... E quantas vezes às custas do verdadeiramente necessário. Ou você nunca deixou de fazer algo de bom para a saúde por falta de dinheiro e ao mesmo tempo está com uma série de coisas desnecessárias? Conte o número dos seus sapatos e de seus livros, depois conclua... As gerações do descarte precisam aprender a reutilizar... No caso do guarda-roupas, com criatividade dá para "atualizar" aquele velho vestido e fazer dele uma "modinha" bem bacana. Calçados, para que tantos? Adquira alguns poucos básicos que se adequem às diferentes circunstâncias e combinem com diferentes tipos de vestuário. Faça um teste e em poucos meses vai perceber quão leve a gente fica quando os armários estiverem mais vazios e te tirarem menos tempo para mantê-los sempre em ordem e as lavagens de roupa se tornarem mais simples. Sabe aquela lavagem de roupas guardadas, emboloradas por falta de uso? Sumiram! E você poderá usar este tempo para dar uma caminhada, jogar conversa fora com a vizinha.. Ah, você conhece sua vizinha? Provavelmente você tem uma e que gostaria de conhecer a sua também....
Suicídio - um caso de saúde pública
Dr.ª Geni Maria Hoss
Teóloga, bioeticista, professora, tradutora
disponível em: genihoss.blogspot.com
"Embora certos condicionalismos psicológicos, culturais e sociais possam levar a realizar um gesto que tão radicalmente contradiz a inclinação natural de cada um à vida, atenuando ou anulando a responsabilidade subjectiva, o suicídio, sob o perfil objetivo, é um ato gravemente imoral, porque comporta a recusa do amor por si mesmo e a renúncia aos deveres de justiça e caridade para com o próximo, com as várias comunidades de que se faz parte, e com a sociedade no seu conjunto" (João Paulo II, Evangelium Vitae, n. 66).
Um dia encontrei uma mãe desesperada num corredor de hospital. Ela havia "brigado" com a sua filha, 14 anos, e esta saiu alterada de casa e, ao atravessar a rua, foi atropelada. Infelizmente o caso foi fatal. A mãe começou a cogitar suicídio e se culpava por isso. Outro motivo, a família era cristã, para tal desespero era que a filha poderia não alcançar a salvação.
Era, supostamente, mais um dos milhares de caso de suicídio. No entanto, mesmo que haja algum sinal de que pode ser suicídio, neste caso, pode ter sido um acidente. Para que se possa classificar como suicídio, é preciso que se tenham elementos claros o suficiente para tal. Também não é direito de ninguém julgar um suicida. Objetivamente é um atentado contra a vida, mas há muitas condições que diminuem ou até mesmo suprimem a responsabilidade.
Hoje, o suicídio não pode mais ser visto como uma exceção... A frequência com que as pessoas tiram sua própria vida já se tornou uma questão de saúde pública. As causas são diversas e muitas vezes tão sutis que somente depois do fato consumado se começam a identificar os indícios do que poderia vir a acontecer. Precisamos olhar com mais carinho para as possíveis condições e causas: estar atentos às questões de saúde mental, educar as crianças desde a mais tenra idade para o fortalecimento pessoal diante das adversidades da vida, valorizar a vida através de uma contínua reflexão e educação para o sentido da vida ancorado em valores maiores.
O excesso de ofertas que promovem bem-estar e prazer produz um vazio existencial, caso o sentido da vida se reduza ao desfrute dos benefícios imediatos de bens temporais. É preciso projetar uma luz para além daquilo que hoje nos satisfaz e amanhã fenece. O sentido último da vida precisa sustentar-se num bem maior e duradouro. Nem mesmo as pessoas que estão ao nosso lado podem ser tidas como este bem último, também elas são frágeis e hoje podem te dar suporte e amanhã podem não mais estar entre nós.
Não importa qual é o nosso valor maior, qual é a nossa fé, mas é relevante que tenhamos referência em uma força superior.
Para os cristãos, toda a força e sentido de vida é iluminado pela fé na ressurreição em Cristo. O que é passageiro tem seu valor passageiro. Nem tudo o que é passageiro é insignificante, mas tem seu valor delimitado no tempo e no espaço. A fé na ressurreição em Cristo, no entanto, dá um sentido a partir de um horizonte seguro.
7 de nov. de 2017
A unidade é fruto do Espírito Santo!
Dr.ª Geni Maria Hoss
"O Espírito Santo constrói a comunhão e a harmonia do povo de Deus. Ele mesmo é a harmonia, tal como é o vínculo de amor entre o Pai e o Filho. É Ele que suscita uma abundante e diversificada riqueza de dons e, ao mesmo tempo, constrói uma unidade que nunca é uniformidade, mas multiforme harmonia que atrai" (Evangelii Gaudium n. 117).
A unidade é fruto do Espírito Santo! Os discursos eloquentemente articulados sobre a diversidade, muitas vezes, esbarram na primeira oportunidade em que se depara com o diferente. Sem o Espírito Santo, o velho discurso carece de coerência na prática. Por isso, mesmo não é de se admirar quando em meios pretensamente defensores da diversidade existe uma verdadeira digladiação recíproca entre diferentes pensares. Tipo "diversidade, sim, enquanto sua opinião se submeta à minha!". E por que há ainda entre cristãos, e por que não dizer entre teólogos, tanto desrespeito pelo diferente? Pode ser que o Espírito Santo os inspirasse a tratar o outro como o menos inteligente só porque defende ideias diferentes? Não, este não é o Espírito Santo! Trata-se de uma confusão entre a arrogância e a força que vem do alto. O Espírito Santo não é um objeto a ser usado a favor das próprias ideias, mas uma força unificadora e santificante que ilumina de forma a fazer reconhecer, em primeiro lugar, as próprias limitações. Se é o Espírito Santo, a força e santificante e unificadora, se for a própria arrogância, a força e destruidora, mas que se diga, destruidora de si próprio, porque a opinião alheia pode, sim, ser diferente, mas julgar-se superior, ah, isso sim é destruidor.
27 de out. de 2017
Mulher GG - Genitora e Gestora
Dr.ª Geni Maria Hoss
Teóloga e bioeticista
"A Igreja reconhece a indispensável contribuição da mulher na sociedade, com uma sensibilidade, uma intuição e certas capacidades peculiares, que habitualmente são mais próprias das mulheres que dos homens. Por exemplo, a especial solicitude feminina pelos outros, que se exprime de modo particular, mas não exclusivamente, na maternidade. Vejo, com prazer, como muitas mulheres partilham responsabilidades pastorais juntamente com os sacerdotes, contribuem para o acompanhamento de pessoas, famílias ou grupos e prestam novas contribuições para a reflexão teológica. Mas ainda é preciso ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja. Porque 'o gênio feminino é necessário em todas as expressões da vida social; por isso deve ser garantida a presença das mulheres também no âmbito do trabalho' e nos vários lugares onde se tomam as decisões importantes, tanto na Igreja como nas estruturas sociais" (Evangelii Gaudium n. 103).
O respeito pela mulher considera essencialmente sua maneira própria de ser. Respeitá-la à medida em que se adapta e assume outros modos de ser não é respeito e, sim, reforço de preconceitos. Para ser mulher, não é preciso abdicar da beleza da maternidade, mas também sua missão no mundo não pode ser reduzida a ela. Ademais, é preciso entender que a própria maternidade não se reduz a geração de filhos biológicos, mas é própria do seu gênio que acolhe e cuida da vida. O olhar próprio da mulher é essencial para o equilíbrio da sociedade. O mundo carece de sua perspicácia de percepção para colocar o ser humano no centro do cuidado da vida. A intuição natural para que é essencial para o desenvolvimento humano a faz protagonista no campo da vida. A Igreja e a sociedade precisam desta presença feminina de forma ativa. A sua habilidade é perfeitamente compatível com a tomada de grandes decisões. Por isso, não há fundamento a sua quase ausência em alguns campo de direção. Mais uma vez: a gestão não é coisa própria de um ou outro, ou homem ou mulher, mas da colaboração de ambos, podendo perfeitamente a mulher estar à frente de equipes de gestão. O importante é entender as peculiaridades de cada um e colocá-las a serviço do todo.
9 de ago. de 2017
Estágios da morte - Elisabeth Kübler-Ross
(Dr.ª Geni Maria Hoss)
Grande referência no estudo da morte (tanatologia) é, sem dúvida, Elisabeth Kübler-Ross. Kübler-Ross nasceu na Suíça, mas viveu nos EUA, onde acompanhou milhares de pessoas no estágio final da vida. É defensora dos cuidados paliativos por entender a urgente necessidade de humanização e cuidado a fim de que as pessoas possam viver com sentido de vida até o fim da vida. A projeção internacional do seu trabalho se deu ao publicar, em 1969, o livro Sobre a morte e o morrer [On death and dying]. Ela diz:
“Quanto mais avançamos na ciência, mais parece que tememos e negamos a realidade da morte. Como é possível? Recorremos aos eufemismos; fazemos com que o morto pareça adormecido; mandamos que as crianças saiam, para protegê-las da ansiedade e do túmulo reinantes na casa, isto quando o paciente tem a felicidade de morrer em seu lar; impedimos que as crianças visitem seus pais que se encontram à beira da morte nos hospitais; sustentamos discussões longas e controvertidas sobre dizer ou não a verdade ao paciente, dúvida que raramente surge quando é atendido pelo médico da família que o acompanhou desde o parto até a morte e que está a par das fraquezas e forças de cada membro da família.” (Kübler-Ross, 1996, p. 19).
Ao contrário de tantas outras coisas, a morte é a coisa mais certa da vida. Embora, trabalhe a questão de forma ampla, ela dá um sentido à vida a partir da esperança da não finitude absoluta: “Morrer é como mudar-se de uma casa para outra mais bonita.” (Kübler-Ross, 2007, p. 11). Ela trata, portanto, a questão como um novo nascimento, o que abre uma perspectiva nova. “A experiência da morte é quase idêntica à do nascimento. É como nascer para uma vida diferente, que pode ser vivida com muita simplicidade. Por milhares de anos você foi levado a “acreditar” nas coisas do além. Mas, para mim já não se trata de acreditar, mas de saber.” (Kübler-Ross, 2007, p. 10). As suas observações e pesquisas identificaram uma percepção semelhante no final da vida, porém, com elementos próprios das crenças individuais.
Kübler-Ross é conhecida por defender cinco estágios que a pessoa passa no final da vida, evidentemente se fala de uma possibilidade de consciência da situação. Defendemos os estágios, porém, a sequência é um caminho muito particular, podendo ter idas e vindas, o que é bom observar quando se trata de acompanhar alguém neste estágio.
Os cinco estágios foram desenvolvidos por Kübler-Ross, no livro Sobre a morte e o morrer - do cap. III ao cap. VII.
1. A negação:
“Não, eu não, não pode ser verdade!” (Kübler-Ross, 1996, p. 51). A primeira reação é a da não aceitação. Eu tinha tanto ainda para viver.... É preciso algum tempo para assimilar a informação sobre o real estado de saúde, portanto, mais do que conselhos, a pessoa precisa ser ouvida, acolhida e compreendida.
2. A raiva
“Não, não é verdade, isso não pode acontecer comigo!” (Kübler-Ross, 1996, p. 63). A raiva já indica um estágio de compreensão da própria condição. Ela vem muitas vezes acompanhada com a alteração da rotina, da interrupção de atividades, o que muda substancialmente o modo de viver e acentua a percepção do fim iminente.
3. A barganha
“Se Deus decidiu levar-me deste mundo e não atendeu meus apelos cheios de ira, talvez seja mais condescendente se eu apelar com calma.” (Kübler Ross, 1996, p. 95). Já tenho experimentado profundamente a incapacidade do domínio sobre a própria vida, já tendo buscado uma força transcendente, a barganha significa uma última opção para que efetivamente algo desejado – a libertação da morte naquele momento – aconteça efetivamente. A barganha inclui moeda de troca. Neste estágio há muitas promessas, por vezes secretas. Já o comportamento agressivo do estágio anterior tende a desaparecer e, no lugar dele, a pessoa se torna mais calma e reflexiva.
4. A depressão
A própria debilidade física e psíquica da pessoa vai indicando o fim próximo. Além disso, o ambiente externo vai dando sinais de que algo está diferente. Particularmente neste estágio, a pessoa acaba recebendo visitas que, antes, eram raras ou mesmo ausentes. Mesmo na falta de uma boa comunicação entre equipe médica e familiares ou cuidadores legalmente constituídos, o ambiente comunica algo. É um estágio particularmente difícil se a pessoa não está devidamente informada e ao mesmo tempo ela vai captando “no ar” algo de estranho sobre sua pessoa.
5. A aceitação
É o último estágio, portanto, de plena consciência de que está acontecendo. Neste estágio, a pessoa aceita sua condição e é extremamente relevante que se criem possibilidades de, segundo suas condições, poder permanecer integrada nos seus ambientes, que realize seus desejos. De modo especial, deve-se cuidar e entender, talvez só nas entrelinhas, suas últimas necessidades: de resolver coisas pendentes. Estas podem ser de ordem econômica, relacional, espiritual. É neste estágio que surge a vontade de ver alguma pessoa distante de pedir ou ter o perdão de algum familiar. Pais jovens, por vezes, precisam saber sobre o cuidado de seus filhos. É um estágio importante também para o cuidado espiritual, segundo a crença de cada um.
Compreender as cinco fases observadas por Kübler-Ross ajuda a ajudar de forma mais acertada nestas fases distintas, embora não se possa defendê-las como uniformidade e, sim, nas suas manifestações sempre individualizadas. Elas podem não ter uma sequência tão distinta, mas condições pessoais podem permitir que algum estágio vencido volte a se manifestar. Um exemplo concreto, são situações como a informação sobre tratamentos disponíveis em algum lugar antes não conhecido, algumas pessoas que convencem e reanimam a partir de alguma promessa na linha da fé... A própria personalidade da pessoa torna este caminho bem particular e sempre novo de modo que não se pode prescrevê-lo ou segui-lo a partir de descrições anteriores.
Bibliografia
KÜBLER-ROSS, Elisabeth. A morte: um amanhecer. 6. ed. São Paulo: Pensamento, 2007.
______ Sobre a Morte e o Morrer. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996. Tradução: Paulo Menezes.
28 de jul. de 2017
Sobre questões do corpo - Dr.ª Geni Maria Hoss, disponível em: genihoss.blogspot.com
O corpo: entre idolatrias e desprezos!
Atualmente, o corpo está em evidência por diversos motivos. Na sociedade consumista, a sua beleza e perfeição são exaltados para se obter o máximo de lucros com os produtos de estética e beleza sempre mais sofisticados disponíveis no mercado. Os avanços tecnológicos na área da medicina permitem sonhar com sobrevida do corpo sempre mais longa e confortável. Crescem os dilemas em torno da finitude insuperável do corpo. Nas religiões, o corpo entra no debate do seu sentido e valor aqui e agora e também em vista da dimensão escatológica. Não se pode, porém, abordar assunto de tal abrangência com poucas palavras. Por isso, fazemos um recorte do pensamento da Igreja Católica a partir do Concílio Vaticano II, incluindo sua contribuição para o debate bioético. Fruto do diálogo com as ciências humanas, documentos como a Constituição Pastoral Gaudium et Spes abrem caminho para superar a dicotomia do ser humano, afirmada por séculos, e reconhecer seu ser como um todo em sua unidade e totalidade. “Corpore et anima unus (uno de alma e corpo.” (Catecismo da Igreja Católica, 1999, n. 362). Ser humano, em sua totalidade imagem e semelhança de Deus, exaltada por Cristo. "O Filho de Deus, no mistério da Encarnação, confirmou a dignidade do corpo e da alma, constitutivos do ser humano. Cristo não desdenhou a corporeidade humana, mas revelou plenamente o seu significado e valor" (Congregação para a Doutrina da Fé, 2008, n. 7).
O corpo, que já foi considerado um mal necessário para a subsistência da alma, hoje, na perspectiva de visão integral do ser humano, é reconhecido como essencial para a identidade do ser humano. O ser humano, que é pessoa com dignidade em todos os momentos e circunstâncias, pelo corpo estabelece relações e significados. É na corporeidade que constrói e revela sua identidade, aquela essência que o torna único e distinto dos demais. É no reconhecimento do corpo, com suas dimensões próprias, que se pode afirmar sua capacidade de transcendê-lo, a sua capacidade intrínseca de ter fé. “O homem é capaz de Deus” (CIC, 27-30)
Dissemos recuperação da visão original do ser humano, pois na raiz da fé cristã, em sua Palavra Sagrada, ele foi sempre imagem de Deus, em sua totalidade. “A antropologia bíblica exclui o dualismo mente-corpo. O ser humano é considerado aí na sua integridade. Entre os termos hebraicos fundamentais usados no AT para designar o ser humano, nefesh significa a vida de uma pessoa concreta que está viva (Gn 9,4; Lv 24,17-18; Pr 8,35). Mas o ser humano não tem um nefesh, ele é um nefesh. (Comissão Teológica Internacional, 2004, n. 28). Já o termo basar se refere à carne dos animais e dos humanos, e às vezes ao corpo no seu conjunto (Lv 4,11; 26,29). Também neste caso, o homem não tem um basar, mas é basar. O termo neotestamentário sarx (carne) pode denotar a corporeidade material do ser humano (2Cor 12,7), mas também a pessoa no seu conjunto (Rm 8,6). Outro termo grego, soma (corpo), refere-se ao ser humano inteiro, pondo a ênfase na sua manifestação exterior. Também aqui o homem não possui um corpo, mas é seu corpo. ” (Comunhão e Serviço n. 28).
Unicidade: o indivíduo tem relação com o código genético de seus progenitores e ao mesmo tempo seu patrimônio genético é novo e único. A expressão unitotalidade, marcante, da abordagem personalista, surge para definir um novo paradigma sobre a pessoa. A distinção das diferentes dimensões de uma mesma realidade não é sinônimo de separação e independência das partes. As reminiscências da dicotomia corpo e alma e do mecanicismo, que pressupõe o funcionamento do organismo segundo uma mecânica pré-definida inalterável, são superados nesta abordagem. “Por força da sua união substancial com uma alma espiritual, o corpo humano não pode ser considerado apenas como um conjunto de tecidos, órgãos e funções, nem pode ser avaliado com o mesmo critério do corpo dos animais. Ele é parte constitutiva da pessoa que através dele se manifesta e se exprime.” (Congregação para a Doutrina da Fé, 1987, n. 3). Portanto, a verdade sobre o ser humano, a verdade revelada, trata de um ser constituído de diversas dimensões relevantes para sua existência histórica e sua esperança escatológica. Em Deus, o Filho, o ser humano se conhece e reconhece. “A verdade revelada é verdade de salvação. É justamente essa verdade que nos diz quem é o homem, fazendo-nos conhecer ao que ele é chamado; precisamos pressupor uma coerência fundamental entre nosso ser e o nosso destino se não queremos que este último apareça como algo meramente exterior a nós mesmos.” (Ladaria, 2007, p. 12). O sentido pleno implica na dupla realidade: presente e futura. A esperança na Ressurreição em Cristo ilumina e significa a realidade presente. Por isso, nenhuma dimensão da experiência humana no tempo e na história pode ser vista como algo inútil e secundário. Sobretudo, porque ela é em vista da Ressurreição em Cristo.
Viver no corpo é viver em movimento em busca do sentido último da existência. Trata-se de um movimento não repetitivo, mas sempre novo, rumo à sua própria realização plena. “O corpo não apenas estabelece a relação com o mundo como também confere ao mundo significados sempre novos, transcendendo continuamente as próprias experiências e os significados precedentes.” (Sgreccia, 1996, p. 126). A experiência humana é uma experiência de limites, próprios do espaço e do tempo. O corpo, no mundo das ciências, pode ser descrito com suas propriedades físicas e leis próprias que regem o desenvolvimento biológico, mas não pode ser reduzido “um simples complexo de órgãos, funções e energias, que há de ser usado segundo critérios de mero prazer e eficiência”. (João Paulo II, 1995, n. 23). O corpo tem dignidade própria não podendo ser idolatrado e nem menosprezado. Ele não é a única dimensão da vida humana, porém, essencial para que as outras dimensões possam manifestar-se. “No homem, a personalidade subsiste na individualidade constituída por um corpo animado e estruturado por um espírito.” (Sgreccia, 1996, p. 79). Olhando para Jesus, vemos que o corpo ocupa um importante espaço para sua missão. Ele se volta à pessoa como um todo, portanto, também à sua dimensão corpórea. “A missão de Jesus, com as numerosas curas realizadas, indica quanto Deus tem a peito também a vida corporal da pessoa.” (João Paulo II, 1995, n. 47, grifo do original). Através de uma série de reflexões teológicas sobre o corpo, hoje reunidas sob o tema Teologia do Corpo, João Paulo II lança uma nova luz sobre o corpo. Apresenta os desafios do reducionismo tanto numa como em outra dimensão da vida humana devido ao significado identificado na sua totalidade. “O homem cessa, por assim dizer, de identificar-se subjetivamente com o próprio corpo, porque privado do significado e da dignidade derivantes de este corpo ser próprio da pessoa. Encontramo-nos aqui no limite de problemas, que muitas vezes exigem soluções fundamentais, impossíveis sem uma visão integral do homem”. (João Paulo II, 1981).
Bibliografia
COMISSÃO Teológica Internacional. Comunhão e Serviço: A pessoa humana criada à imagem de Deus, 2004. Disponível em: <http://www.vatican.va/roman_curia/ congregations/cfaith/cti_documents/rc_con_cfaith_doc_20040723_communionstewardship_po.html> Acesso em: 25 ago. 2013.
JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Evangelium Vitae. Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_25031995_evangelium-vitae.pdf>. Acesso em: 20 dez. 2016.
LADARIA, Luis. Introdução à Antropologia Teológica. São Paulo: Loyola 2007.
12 de abr. de 2017
Thanatos: a morte - dilemas éticos
Texto: teóloga Dr.ª Geni Maria Hoss (HOSS, Geni Maria)
Disponível em: www.genihoss.blogspot.com.br
Thanatos, na mitologia grega, significa morte. O termo deu origem aos neologismos próprios do fim da vida. Thanatos também deu origem ao termo que define os estudos científicos sobre a morte: a tanatologia. Também deste termo surgiram as palavras com sufixo tanásia (de Thanatos) que especificam de forma precisa as diferentes condições do fim da vida.
Com os avanços tecnológicos, lidar com o fim da vida tornou-se mais uma questão de decisão do que de destino.
Iniciamos pelo termo mais conhecido, a eutanásia, usado por Francis Bacon, em sua obra Historia vitae et mortis, 1623, com o significado de boa morte. Boa morte significando intervenção para abreviar a vida, caso viver signifique desconforto e sofrimentos.
Hoje classifica-se a eutanásia em algumas categorias distintas de acordo com o procedimento adotado:
· Ativa: ação com intenção direta de provocar a morte;
· Passiva: morte decorrente de omissão intencional;
· Duplo efeito: morte como efeito colateral de uma ação com a intenção de amenizar o sofrimento.
O duplo efeito, quando garantida a intenção do bem-estar do paciente e está excluída a intenção de provocar a morte, sendo esta apenas uma consequência natural, a Igreja Católica considera admissível. Daí o cuidado preliminar de esclarecer a situação, averiguar as reais intenções e conhecer profundamente o significado das terminologias próprias do fim da vida. É admissível, porque não é eutanásia e, sim, um procedimento próprio dos cuidados paliativos.
A possibilidade de prolongar, isto é, distancia a morte, denomina-se de distanásia
O termo foi usado por Georges Morache, Naissance et Mort, Paris, 1904. A distanásia se dá pelo uso desproporcional de terapêuticas e biotecnologias, ou seja, a “obstinação terapêutica”. Usam-se meios terapêuticos, mesmo após ser constatada a morte irreversível e iminente. Os pacientes geralmente passam longos períodos em Centros de Tratamento Intensivo, sendo mantidos os sinais vitais através de tecnologias complexas e onerosas em todos os sentidos. Os cuidados clínicos não têm mais efeito terapêutico. A dificuldade de aceitar a finitude da vida por parte dos profissionais de saúde, preparados para curar e não tanto para cuidar, e dos familiares ou responsáveis, que não sabem lidar com uma possível perda de um ente querido, muitas vezes apenas prolonga o sofrimento dos pacientes uma vez que o ambiente de um CTI não permite os mesmos vínculos com os familiares do que um outro ambiente no hospital ou, inclusive, em casa. É preciso assegurar: usar todos os meios terapêuticos disponíveis desde que haja condições para que produzam efeito positivo e não se tornem apenas processos de distanciar a morte.
Outro termo da área, bastante desconhecido, é mistanásia, ou seja, a eutanásia social ou morte triste. O termo foi exposto de forma clara por Leonard Martin, Introdução à Bioética, (1998). Trata-se da morte prematura em função de omissão de socorro, erro médico, imprudência, negligência. O tratamento está disponível, mas alguns fatores impedem que o paciente tenha acesso a ele. Geralmente são de ordem socioeconômica, deficiências nos sistemas públicos de saúde bem como da qualidade dos profissionais envolvidos na assistência. Neste último caso, existe uma responsabilidade marcante desde a formação dos novos médicos e sua habilidade de prestar assistência qualificada e humanizada e sua postura moral e ética.
Se tanto a eutanásia, distanásia e mistanásia são moralmente inadmissíveis, segundo o ensinamento do Magistério, temos de falar de ortotanásia, ou seja, da morte natural. “A interrupção de procedimentos médicos onerosos, perigosos, extraordinários ou desproporcionais aos resultados esperados pode ser legítima É a rejeição da ‘obstinação terapêutica’. Não se quer dessa maneira provocar a morte; aceita-se não poder impedi-la” (CIC n. 2.278). O legítimo é investir em terapêuticas enquanto há possibilidade de efeito desejado, porém, quando da sua impossibilidade, aceita-se a morte como processo inerente à própria vida. As decisões sobre a forma de cuidado terapêutico ou não, no entanto, devem ser tomadas com o consentimento do paciente ou seu representante legal. Aqui não se pode esquecer a magnífica encíclica viva de S. João Paulo II. Numa frase, na verdade suas útlimas palavras, ele selou o pensamento da Igreja sobre a morte: “Deixem-me ir para a Casa do Pai! Algumas pessoas não acostumadas com uma relação tão natural com a morte, fizeram duras críticas quanto a esta postura de S. João Paulo II, sugerindo, inclusive, que poderia ser eutanásia. Mas a esperança cristã nos coloca diante da morte como passagem, chegada a hora, sabemos que devemos aceita-la não como um fim, mas como sentido último da nossa própria vida na história.
Cicely Saunders (1918-2005), ao se deparar com pacientes em fase terminal, ela constatou: mesmo aqueles que desejavam a eutanásia, depois de receber atendimento humanizado, encontraram um novo sentido para esta fase e condição de vida. Em 1967, ela fundou o Hospice St. Christopher. Hospice, uma palavra inglesa, é não só um lugar, mas também uma filosofia do cuidado para a humanização do fim da vida, ou seja, cuidados paliativos. A ideia central é o cuidado e conforto físico, psíquico e espiritual, o apoio aos familiares e cuidadores. A espiritualidade que, de maneira única, é uma relevante dimensão capaz de garantir sentido de vida em condições difíceis como é a experiência da finitude. Nesta fase, é importante assegurar ao doente os laços sociais, o lazer adaptado às suas condições, comunicação, autonomia, assistência espiritual segundo sua profissão de fé (no caso dos católicos, a recepção dos sacramentos).
Sobre os cuidados paliativos, a Igreja ensina: "Os cuidados paliativos constituem uma forma privilegiada de caridade desinteressada. Por essa razão, devem ser encorajados“ (CIC n. 2.279)
É especialmente neste tempo de cuidados paliativos que a pessoa se ocupa com a morte. Para cada caso, existe um delicado processo de assimilar a comunicação da de morte iminente. Elizabeth Kübler Ross (1926-2004), em 1969, escreveu um livro conclusivo de sua experiência junto a pessoas diante da morte próxima. Na publicação, On death and dying (Sobre a morte e o morrer), ela expõe alguns passos que antecedem à morte. Assumimos aqui as diferentes manifestações da pessoa, porém, a ordem e a intensidade e entendida como algo muito pessoal. Isto porque pode haver avanços e recaídas. 1. Negação; 2. Raiva; 3. Barganha; 4. Depressão; 5. Aceitação. No livro acima citado, lemos:
Negação:
“Não, eu não, não pode ser verdade!” (p. 51)
Raiva:
“Não, não é verdade, isso não pode acontecer comigo!” (p. 63)
Barganha:
“Se Deus decidiu levar-me deste mundo e não atendeu meus apelos cheios de ira, talvez seja mais condescendente se eu apelar com calma“ (p. 95)
Depressão:
“Estou tão triste, me sinto sozinho, me deixem em paz!”
Aceitação:
“Não tem mais o que fazer, vou me preparar!” (Disposto a resolver questões pendentes).
O sentido cristão da morte
O paradigma da unitotalidade da pessoa, ou seja, da pessoa integral, sem dicotomia corpo e alma, implica num modo próprio de lidar com a morte e a realização de ritos próprios. “Graças a Cristo, a morte cristã tem um significado positivo. (...) ‘Para os que creem em vós, Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma’” (Congregação para a Doutrina da Fé, 2016, n. 2).
Todo o rito fúnebre religioso está voltado à fé na ressurreição e o respeito pela dignidade do corpo: “A grande dignidade do corpo humano como parte integrante da pessoa da qual o corpo partilha a história”. (Congregação para a Doutrina da Fé, 2016, n. 3).
Vislumbrando possibilidades sempre mais concretas de vida longa e ao mesmo tempo com dificuldade de lidar com condições não superáveis, desenvolveu-se nos últimos anos uma série de procedimentos para mascarar a morte. A necromaquiagem disfarça de tal maneira a real condição do corpo, que os sinais próprios de morte ficam mascaradas. Este cuidado excessivo, na verdade, revela a dificuldade de se confrontar com a finitude.
Um ponto relevante sobre o cuidado do corpo, ou melhor, seu repouso eterno é a questão da cremação. “A Igreja não vê razões doutrinais para impedir tal práxis”, porém, a preservação das cinzas deve ser em lugar sagrado (cf. Congregação para a Doutrina da Fé, 2016, n. 4).
Bibliografia
CATECISMO da Igreja Católica. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Loyola, 1999.
CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração sobre a Eutanásia. Disponível em: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19800505_euthanasia_po.html. Acesso em: 20 mar. 2017.
______Instrução Ad resurgendum cum Christo a propósito da sepultura dos defuntos e da conservação das (...) cinzas da cremação. Disponível em:<http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20160815_ad-resurgendum-cum-christo_po.html>. Acesso em: 5 nov. 2016.
KÜBLER ROSS, E. Sobre a morte e o morrer. Rio de Janeiro: Editora Martins Fontes, 1985.
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